Foo Fighters constrói mapa musical com disco e série

Um disco que passeia pela história musical norte-americana e se retroalimenta dessas influências; uma série de TV que acompanha esse processo; a expectativa para uma turnê mundial, com quatro shows no Brasil. Semana após semana, os fãs do Foo Fighters têm se desdobrado para acompanhar tudo o que rodeia a banda liderada por Dave Grohl, que em 2015 completa 20 anos de existência. E duas décadas depois, tudo o que se pode dizer é que Sonic Highways – novo CD que chegou às lojas na segunda-feira (10) – faz jus a uma história que começou com o fim trágico de uma das bandas mais emblemáticas da década de 90, mas cada vez mais se desvencilha dela.

Se no início do Foo Fighters Dave Grohl se esquivava de todas as perguntas sobre sua relação com Kurt Cobain e sua atuação como baterista do Nirvana, quase duas décadas depois ele começou a se sentir mais à vontade para falar sobre o assunto – embora não sem lamentos. Em 2011, Grohl exorcizou alguns de seus fantasmas no documentário Back & Forth, que acompanhou as gravações do álbum Wasting Light. Em 2014, ele chegou a fazer as pazes com Courtney Love, viúva de Cobain, durante as homenagens ao Nirvana no tributo realizado no Rock and Roll Hall of Fame. E em Sonic Highways, Seattle, cidade norte-americana onde nasceu o Nirvana, foi uma das escolhidas no mapa musical criado pelo Foo Fighters em sua nova empreitada.

Se por um lado não se pode ignorar esse capítulo da história de Dave Grohl, por outro o Foo Fighter tornou-se muito mais que a banda criada pelo ex-baterista do Nirvana. Com oito álbuns de estúdio lançados – além de um acústico e de uma compilação de hits -, além de vários projetos paralelos de seus integrantes – como Them Crooked Vultures – e uma infinidade de parcerias, o FF é hoje uma das bandas mais profícuas do rock alternativo.

Grohl, Chris Shifflet, Taylor Hawkins, Pat Smear e Nate Mendel conseguiram uma sintonia musical cada vez mais rara em bandas com um pouco mais de estrada. Talvez porque os papéis tenham sido bem definidos desde o início do FF, em 1994. Dave Grohl não é apenas o frontman, mas, principalmente, o líder do grupo. Em geral, os projetos partem dele e são abraçados pelos demais. Foi assim, por exemplo, com Sonic Highways, mais uma ousadia do inventivo Grohl.

Música – Após o bem-sucedido Wasting Light, gravado no estúdio caseiro de Dave Grohl com equipamentos analógicos e produzido por Buch Vig – o mesmo produtor do aclamado Nevermind, do Nirvana -, o frontman do Foo Fighters mostrou seu lado diretor com o documentário Sound City, que fazia mais que um resgate do lendário estúdio que recebeu nomes de peso da música – como Tom Petty, Neil Young, Metallica, entre outros -, pois destacava capítulos importantes da música norte-americana.

Mais que isso, Sound City foi o embrião da série Sonic Highways – exibida nos EUA pelo canal HBO e que chegará ao Brasil dia 30, pelo canal BIS -, que nasceu da necessidade que Dave Grohl demonstra ter de reverenciar a boa música. Em oito capítulos, os Foo Fighters traçam um mapa musical dos Estados Unidos por estradas sônicas que, embora pareçam dissociadas, se correlacionam. O clímax de todas as entrevistas realizadas por Grohl, com músicos, produtores e pessoas célebres – como o presidente Barack Obama -, é a canção escrita pelo líder do Foo Fighters ao final de cada episódio.

Faixa a faixa – Chicago, Washington, Nashville, Austin, Los Angeles, Nova Orleans, Seattle e Nova York foram os destinos escolhidos para a experiência sociológica e musical da banda. O primeiro registro, que teve como personagens o guitarrista Rick Nielsen (do Cheap Trick), o produtor Steve Albini, entre outros, resultou na música Something from nothing, a primeira a ser divulgada na internet. A canção traz todas as referências à história musical de Chicago, desde o blues até o punk e começa mais devagar até explodir com os berros inconfundíveis de Grohl.

The Feast and the Famine traz à tona a cena punk de Washington DC, onde Dave Grohl cresceu. Entre os depoimentos, destaque para a prima Tracey, que teve papel fundamental na iniciação de Grohl na música, como fica claro na biografia This is a Call, de Paul Brannigan. De Nashville, terra do country, nasceu Congregation, que tem a participação especial de Zac Brown nas guitarras e nos vocais. Uma faixa dupla nasceu em Austin, Texas: What did I do/God is my witness tem a participação de Gary Clark Jr nas guitarras.

De Los Angeles – onde alguns integrantes da banda moram atualmente – vem Outside, definida por alguns fãs como uma canção com influências da surf music. O jazz característico de Nova Orleans foi a trilha sonora que serviu de inspiração para In the clear, que tem a participação da New Orleans Preservation Hall Jazz Band. A mais obscura das faixas de Sonic Highways é Subterranean, gravada em Seattle, local que acompanhou o nascimento do Nirvana e, com ele, do grunge. Encerrando o disco, Nova York é representada por I am a river, que tem a participação de Joan Jett.

Musicalmente, Sonic Highways é o disco mais complexo do Foo Fighters, embora tenha apenas oito faixas. Talvez muitos não o compreendam bem, enquanto outros teimem em compará-lo aos seus antecessores, certo é que Dave Grohl cumpriu com o prometido e lançou um álbum diferente de tudo o que a banda já fez anteriormente, mas sem perder a identidade.

Discografia:

– Foo Fighters, 1995sonic highways cd

– The Colour and the shape, 1997

– There’s nothing left to lose, 1999

– One by one, 2002

– In your honor, 2005 Skin and bones, 2006

– Echoes, silence, patience & Grace,2007

– Greatest Hits, 2009

– Wasting Light, 2011

– Sonic Higways, 2014

Texto publicado na edição do dia 23 de novembro de 2014 do Jornal O Estado do Maranhão

Na medida do impossível: indiscutivelmente bom

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“Hoje eu só quero o silêncio”. O verso inicial de Doce companhia – uma versão para Dulce compañia, de Julieta Venegas – expressa o oposto do que se quer após se começar a ouvir Na medida do impossível, quarto disco solo de Fernanda Takai. A vontade é ouvir mais e mais a voz doce da mineira, que mais uma vez pede licença aos companheiros do Pato Fu para aventurar-se sozinha no mercado fonográfico. Novamente de maneira bem sucedida.

Quatro anos depois de lançar com sua banda Música de Brinquedo – uma rica compilação de canções conhecidas gravadas com sons de brinquedos e que consegue agradar adultos e crianças -, Fernanda Takai confirma as mesmas impressões deixadas pelos álbuns Onde brilhem os olhos seus, de 2007 – que reúne músicas que haviam sido gravadas por Nara Leão – Luz Negra, de 2009 – registro ao vivo da turnê – e o CD bilíngue Fundamental, de 2012 – projeto idealizado pelo ex-guitarrista do The Police, Andy Summers:  sabe com perfeição escolher um repertório agradável e sofisticado ao mesmo tempo.

Todas as músicas que a mineira canta funcionam com perfeição para a sua voz, como Mon amour, meu bem, ma femme – composta por Cleide e famosa na voz de Reginaldo Rossi e interpretada em dueto com Zélia Duncan nesta nova versão -, Como dizia o mestre, de Benito de Paula, e A pobreza, de Renato Barros.

E estabelecer boas parcerias é outro talento de Fernanda Takai, tanto para dividir os vocais – como no encontro com o conterrâneo mineiro Samuel Rosa, do Skank, em Pra curar essa dor, versão de Heal the pain, de George Michael – quanto para compor. Neste caso, os resultados foram as belas Seu tipo, parceria com Pitty, Quase desatento, com Marina Lima e Climério Ferreira, e De um jeito ou de outro, com Marcelo Bonfá. Mas o destaque vale mesmo para o dueto com o Padre Fabio de Melo, com quem gravou Amar como Jesus amou, do Padre Zezinho. A versão ganhou modernidade, com batidas eletrônicas, sem perder a singeleza da canção original.

Antenada com as tendências atuais, Takai disponibilizou o álbum inteiro para audição antes mesmo do lançamento oficial, no dia 18 de março, e vem utilizando bastante as redes sociais para divulgar seu trabalho. Mas foi sagaz ao lançar o CD com uma bela capa tridimensional – que mescla objetos em miniatura, imagens impressas e texturas, em um projeto assinado por Mariana Hardy, com base em uma imagem de 1885 do fotógrafo japonês Kusakabe Kimbei -, que certamente aumentará o interesse pela compra nas lojas.

A tarefa de ouvir um disco inteiro nos dias de hoje – com tanta oferta musical pela internet é quase impossível se demorar tanto em uma única obra – mostra-se um deleite quando se está diante de um álbum tão bem produzido. Em nenhum momento pensa-se em pular alguma música ou interromper a audição na metade. Todas as 13 faixas foram escolhidas para agradar quem gosta de música boa e ainda assim acessível.  

Fernanda Takai parece fazer sua música de um jeito tão descomplicado e despretensioso que é impossível não se sentir tocado pelos versos que entoa com sua voz quase sussurrada. Na medida do impossível é um alento em meio ao caos musical dos dias de hoje, quando tudo parece meio forçado e feito para vender, tocar no rádio e fazer sucesso. O disco é bom e fim de papo! Sem discussões ou contestações. Basta ouvir.

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Na medida do impossível foi lançado no ano em que o Pato Fu – uma das bandas mais ricas musicalmente do país – completa 22 anos, mas é quase como um projeto em conjunto, já que a produção é de John Ulhoa – marido de Fernanda Takai – e tem a participação de Lulu Camargo, ambos músicos da banda mineira, que não lança um CD de músicas inéditas desde 2007. Além do projeto solo de Takai, o baixista Ricardo Koctus lançou, no ano passado, o disco Samba Bossa Rock’n’Roll, e John assina a trilha sonora do espetáculo As aventuras de Alice no país das Maravilhas: a história e as músicas, do grupo Giramundo. 

O que vem depois do felizes para sempre

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Não se engane. Apesar das rugas e de toda aquela realidade pesando nos ombros, Jesse e Celine ainda são os mesmos. Só que diferentes. Confuso? Contraditório? Assim o são também os protagonistas de Antes da meia-noite, sequência de Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-sol, que se já não apresenta tão latente o romantismo do primeiro, também não soa tão melancólico quanto o segundo.

O terceiro filme dirigido por Richard Linklater e protagonizado por Julie Delpy e Ethan Hawke é verdadeiro, sem deixar de lado os ingredientes que cativaram o público mais de 15 anos atrás: diálogos bem elaborados e um entrosamento perfeito entre os atores principais. Para quem pensava que nada mais havia para extrair de uma história que foge dos clichês românticos, Linklater mostra que ainda era possível sim dar mais um passo adiante. Juntos, os três filmes são quase um tratado de psicologia, um compêndio da complexidade do ser humano durante um relacionamento amoroso.

Para os pouco familiarizados com a história basta dizer que o norte-americano Jesse conhece a jovem francesa Celine em um trem, nos idos de 1994, e resolve convidá-la para um passeio por Viena, até que os dois se despeçam na manhã seguinte (Antes do Amanhecer). É o suficiente para o começo do romance, que sobrevive na expectativa do reencontro. Dez anos depois isso finalmente acontece: em Paris, Celine revê Jesse, agora escritor, casado e com um filho. Aos poucos, eles expõem as cicatrizes deixadas por um amor não vivido, mas que, finalmente, parece ter conseguido a sua chance de acontecer (Antes do pôr-do-sol).

Sete anos depois, Jesse e Celine são como o casal após o “e viveram felizes para sempre”. De fato conseguem construir juntos uma vida, com gêmeas e um filho do primeiro casamento do escritor, mas várias pendências emocionais. Antes da meia-noite pode soar realista demais para quem prefere mergulhar em romances açucarados, mas é autêntico e encantador ao seu modo. E mesmo sobrecarregados pelas agruras da vida real, em vários momentos Jesse e Celine – os do primeiro filme – conseguem se sobressair.

Linklater ainda parece firme no propósito de mostrar o essencial dessa história: a sintonia entre Jesse e Celine. Não desvia a atenção do espectador com belas paisagens – Viena, Paris e agora a Grécia são cenários apresentados em segundo plano, sem o apelo para seus grandes atrativos – ou personagens desnecessários – embora neste terceiro filme o elenco tenha aumentado. A relação entre o casal de protagonistas é sustentada no diálogo, na palavra e isso se mantém no terceiro filme, embora, dessa vez, não se possa ignorar o que circunda esse relacionamento – o que é evidenciado na angústia que Jesse sente por não estar mais presente na vida do filho Henry.

Antes da meia-noite – assim como os dois outros filmes – é como uma pausa necessária em uma época que parece refém do tempo. Se o relógio diminuiu seu ritmo para que eles se conhecessem e se encantassem um pelo outro e depois revivessem aquele romance 10 anos depois, neste terceiro filme não é diferente. Com toda a carga que o cotidiano os impõe, quando estão caminhando e conversando sobre os mais diversos assuntos, tornam os ponteiros mais lentos. Podem avançar e retroceder. E continuam sendo encantadores.

Texto publicado na edição do dia 3 de outubro de 2013 do Jornal O Estado do Maranhão

Frozen encanta público com história de amor entre irmãs

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Não é de se espantar que Frozen – Uma aventura congelante, ainda em cartaz no UCI Kinoplex, tenha superado o maior filme de animação da Disney até então. Vinte anos depois de O Rei Leão, melhor estreia dos estúdios, o longa-metragem que mostra a relação entre duas irmãs, em que uma delas tem poderes mágicos relacionados ao gelo, levou 1 milhão de espectadores só no seu fim de semana de estreia, enquanto a história sobre o leão Simba havia levado 523.604 pessoas às salas de exibição. Não se trata de comparações entre dois longas-metragens de qualidades inquestionáveis – e com histórias bem diferentes -, mas de reconhecer que finalmente a Disney conseguiu produzir uma animação tão encantadora quanto à de Simba.

Adaptado do conto de Hans Christian Andersen, A Rainha da Neve, Frozen tem todas as boas premissas de uma animação que pretende seduzir crianças e adultos: um belo visual e uma história tocante, com pitadas de bom humor. Anna e Elsa são duas princesas, herdeiras do trono de Arendelle, que se divertem na infância, principalmente com as brincadeiras proporcionadas pelos poderes mágicos da primogênita. A alegria no castelo é interrompida após um acidente, do qual Elsa sente-se responsável. Levada pelos pais aos trolls – pequenas criaturas sábias e alegres que conhecem o amor como ninguém -, Anna sobrevive, mas, para isso, parte de sua memória é retirada, e os poderes mágicos de Elsa precisam ser escondidos de todos, inclusive da irmã mais nova.

Alegre e vivaz, Anna insiste em ter uma relação mais próxima com Elsa, que passa a maior parte do tempo trancada em um quarto, tentando conter seus poderes. Tempos depois da morte dos pais, durante a coroação da mais velha como rainha as duas irmãs voltam a se encontrar, mas a descoberta acidental dos poderes de Elsa acaba por afastá-las novamente. Enquanto o reino sofre com um inverno cada vez mais rigoroso, Elsa constrói o seu castelo de gelo nas montanhas, onde, pelo menos, sente-se livre para ser quem é.

Frozen é um filme musical – os personagens cantam várias vezes para demonstrar suas emoções -, o que nem sempre agrada a todos, mas as cenas musicais são muito bem colocadas e ajustam-se bem ao enredo. Acrescente-se a isso um visual fascinante, graças ao efeito dos poderes mágicos de Elsa, que consegue produzir neve e peças de gelo, como o suntuoso castelo onde passa a viver e o vestido que produz após fugir do seu reino. Mas tudo isso seria mero detalhe não fosse sua história bem construída.

Centrada na relação entre as duas irmãs, Frozen é mais que um filme de princesas para agradar a jovens meninas. Assim como as irmãs Dashwood do livro Razão e Sensibilidade, da escritora britânica Jane Austen, Anna e Elsa são duas personalidades quase opostas, mas complementares. Enquanto Elsa precisa se conter o tempo todo– para não colocar ninguém em risco por causa dos seus poderes -, Anna é pura emoção, efusiva e impulsiva ao ponto de aceitar se casar com um príncipe que acabou de conhecer.

Por causa dessa personalidade da irmã mais nova, é difícil não criar uma empatia maior com essa personagem, principalmente quando ela passa a conviver com o alpinista Kristoff, a rena Sven e o boneco de neve Olaf, o alívio cômico da trama. Os três a acompanham em sua jornada à procura de Elsa e pela salvação do reino de Arendelle. Na versão dublada para o português, o simpático boneco criado por Elsa, que sonha em conhecer o verão – sem saber o que isso lhe causaria – tem a voz do humorista Fábio Porchat. E é justamente do personagem mais engraçado da história que vem uma linda definição do que é amor: “é quando você abre mão de suas necessidades por causa das necessidades de outra pessoa”.

Deixando em segundo plano o amor romântico, neste novo filme da Disney não é um beijo de um príncipe que salva uma princesa, mas um lindo gesto de amor entre irmãs. Mesmo os corações mais gélidos se aquecerão com esta animação que veio acrescentar mais duas princesas encantadoras ao rol onde figuram Aurora, Cinderela, Branca de Neve, Rapunzel, Ariel e tantas outras moças virtuosas, que lutam para chegar ao sonhado final feliz.

Publicado na edição do dia 18 de fevereiro de 2014 do jornal O Estado do Maranhão

Rockshow – Paul McCartney e a banda Wings

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Paul McCartney é o que se pode se chamar de uma unanimidade musical. Difícil encontrar quem não goste de pelo menos uma canção composta – ou cantada – pelo ex-Beatle. Na verdade, é bem mais fácil encontrar fãs do músico, entre os quais muitos brasileiros que foram agraciados com uma série de shows realizados no país recentemente. Quem não teve a oportunidade de conferir uma dessas apresentações pode se consolar com uma marcante performance do cantor em Rockshow, que será exibido nesta sexta-feira (26), sábado (27) e domingo (28), no UCI Kinoplex, no Shopping da Ilha.

O show é um belo momento pinçado de uma carreira consolidada – iniciada na década de 50 com os Beatles – e que, felizmente, ainda deve se prolongar por bastante tempo. A apresentação de 1976, em Seattle, nos Estados Unidos, evidencia que as marcas do tempo estão aparentes apenas no rosto do Paul dos dias de hoje, pois o vigor, o carisma e a qualidade musical percebidos no registro mantêm-se na atualidade. Ao lado dos companheiros da banda Wings – formada pelo ex-Beatle (vocal, baixo e piano), por Denny Laine (vocal e guitarra), Jimmy McCulloch (vocal, guitarra), Joe English (vocal e bateria) e Linda McCartney (vocal, teclado) -, Paul comanda um show memorável, que foi restaurado e remasterizado para ser exibido nos cinemas antes do lançamento em DVD e Blu-Ray.

Já na primeira música, Rockshow, o público se rende à atmosfera vibrante da apresentação e é conduzido pelas próximas horas, ora aplaudindo energicamente, ora apenas contemplando o entrosamento dos músicos no palco. Para quem assiste ao show na sala de cinema, é difícil controlar os impulsos de aplaudir ao final de cada música ou mesmo a vontade de levantar e dançar em alguns momentos.

O set list transita entre rocks vigorosos e baladas mais tranquilas, com Paul ao piano. Músicas como Call me back again, Bluebird, You gave me the answer e My Love compõem alguns dos momentos mais memoráveis do show. Apenas com Paul ao violão, Yesterday emociona a plateia e leva até mesmo marmanjos barbudos às lágrimas. Mas o auge do show é mesmo Live and Let Die, com direito a explosões e jogos de luzes que contagiam o público. Vale um destaque também para Magnetum e Titanium Man, com a imagem de um dos grandes vilões das HQs, Magneto, dos X-Men.

Ver Rockshow na telona é uma experiência sensorial enriquecedora, além de ser uma iniciativa que tem se tornado mais frequente pelas grandes redes de cinema, que têm apostado na exibição de documentários – como Springsteen and I, biografia sobre o cantor norte-americano Bruce Springsteen – e até balés famosos a exemplo de Cinderela e Lago dos Cisnes.

Banda – Em Rockshow Paul McCartney parece muito bem ajustado àquela banda criada em 1971, pouco tempo depois do fim dos Beatles, e que sobreviveu por 10 anos, apesar das mudanças em sua formação. O show relançado nesta sexta-feira em algumas salas de cinema do país integrou a turnê Wings Over América, que foi registrado em um álbum de mesmo nome. Apesar de ser o líder da banda, Paul McCartney assume os backing vocals para que seus colegas Jimmy McCulloch e Denny Laine possam assumir os vocais em algumas canções. Lição de humildade!

Antes da exibição de Rockshow, o cantor fala sobre o relançamento do show, que para ele foi bastante significativo por se tratar de uma das apresentações da turnê americana, o auge – segundo ele – para os artistas que vêm da Europa. Paul aproveita para justificar a presença da esposa Linda McCartney na banda. Para ele, a pouca experiência de Linda era semelhante à dos cinco rapazes de Liverpool no início dos Beatles, mas naquele show ela já exibe mais segurança e consegue interagir com o público. E para finalizar, o ex-Beatle convida os espectadores a desligar os telefones celulares para aproveitar melhor o show. Um pedido de Sir Paul McCartney é uma ordem!

Publicado na edição de 25 de julho do Jornal  O Estado do Maranhão

 

O Homem de Aço

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A primeira providência a tomar antes de assistir a O Homem de Aço, que estreia hoje no Cinesystem, é deixar a melhor referência sobre o herói criado por Jerry Siegel e Joe Shuster – Superman, de 1978, dirigido por Richard Donner e protagonizado por Christopher Reeve – no rol dos filmes clássicos e que, provavelmente, nunca serão superados. Feito isto, o que se seguirá nas próximas horas é a ressurreição do mais famoso personagem das HQs, cuja história bastante conhecida ganha uma versão arrojada e condizente com o que tem sido produzido no filão das adaptações quadrinísticas para o cinema. 

Quando Bryan Singer, o cultuado diretor que conseguiu dar veracidade aos X-Men, da Marvel Comics, tomou para si a tarefa de recriar a narrativa do filho de Kripton, os fãs do herói confiaram que ele era a pessoa certa para cumprir a árdua missão. O problema é que Singer fez apostas erradas – como a escolha de Brandon Routh para protagonizar o longa-metragem – e usou efeitos visuais equivocados. Além disso, o diretor resolveu que Superman O retorno seria uma continuidade de Superman II, de Richard Lester, o que nem com muito esforço e boa vontade conseguiu convencer os espectadores.

O mérito de Zack Snyder foi exatamente apontar em uma direção oposta. Superman merecia uma nova roupagem afinada com os filmes atuais, sem esquecer os componentes dramáticos que o tornam peculiar. Ao escolher distanciar-se da sua versão mais cultuada – e que deu segurança aos estúdios de cinema para apostarem nas adaptações de HQs -, o diretor pode até ter deixado de lado elementos icônicos – como a trilha sonora de John Williams –, mas angariou novos fãs, sem esquecer os antigos.

 

Narrativa – Como tornar interessante uma narrativa tão conhecida quanto a do Superman? Talvez carregando em detalhes pouco explorados, como o nascimento de Kal-El, na soturna Kripton já ameaçada de destruição. Depois de séculos, uma criança nasce por vias naturais no planeta – até então todos os bebês eram gerados em cápsulas e destinados a cumprir missões pré-determinadas. Como um bom visionário, Jor-El imagina um futuro diferente para o seu filho, em que ele pudesse escolher os próprios caminhos. O problema é que não há mais tempo para tais mudanças porque o fim de Kripton é iminente. Além disso, o general Zod resolve tomar o poder, o que lhe dá tempo apenas de matar Jor-El, antes de ser enviado para a Zona Fantasma.

A esposa do cientista, Lara, dá sequência ao plano de Jor-El de enviar seu único filho à Terra para garantir uma coexistência entre humanos e kriptonianos. Em uma passagem de tempo, Kal-El é um homem que está em um navio no meio do oceano, quando um acidente em uma plataforma de petróleo o faz mostrar pela primeira seus poderes sobre-humanos. Daí por diante, o filme oscila entre as memórias do garoto excluído por se sentir diferente dos outros e o homem que pouco a pouco descobre as próprias origens.

O Homem de Aço é quase dois (ou vários) filmes em um. Ao mesmo tempo que tem batalhas épicas entre Superman e o general Zod – que consegue fugir da Zona Fantasma, ao lado de seus comandados -, o longa-metragem tem passagens intimistas e dramáticas, como a morte de Jonathan Kent. Apesar da grandiosidade do filme, Zack Snyder prova que é possível incluir ângulos de câmera que se prendem a detalhes – como roupas balançando em um varal – e uma bela fotografia – como quando o jovem Clark brinca com seu cachorro usando uma capa – em um filme de ação.

 

Elenco – O filme conta com um elenco de veteranos do qual não se podia esperar outra coisa senão boas interpretações. Russel Crowe como Jor-El não apaga a lembrança da participação de luxo de Marlon Brando no Superman (1978), mas consegue convencer como o pai kriptoniano de Kal-El; Diane Lane tem a doçura da Martha Kent que povoa o imaginário dos fãs das HQs; Amy Adams é uma Lois Lane bem mais humana que a de Kate Bosworth (Superman O Retorno); Laurence Fishburne é um Perry White mais comedido do que se esperaria, mas não chega a desagradar. Michael Shannon, como general Zod, também tem sua relevância no filme, embora algumas vezes não consiga a dubiedade do personagem – um vilão que se vê como salvador do seu povo.

Mas, entre os atores mais experientes, Kevin Costner merece um destaque especial por sua interpretação como Jonathan Kent. Com uma carreira bastante irregular, o ator já ganhou um Oscar por sua atuação em Dança com Lobos, mas acumulou mais críticas negativas que elogios, nos últimos anos. Quase sempre insípido, em O Homem de Aço ele consegue a humanidade que se espera do fazendeiro responsável por transmitir valores tão sólidos a Clark/Kal-El. Apesar de ser uma participação especial, Costner demonstrou respeito por um personagem tão importante no universo das HQs.

E o que dizer do protagonista do filme, Henry Cavill? Mais uma vez, é válido evitar comparações com Christopher Reeve. Embora não tenha um currículo tão prestigiado quanto o de seus colegas de elenco – ele participou, entre outros, dos longas-metragens O Conde de Monte Cristo (2002) e Stardust (2007) – o jovem ator consegue conduzir com dignidade o peso de uma das roupas mais famosas e conhecidas do mundo. Talvez muitos não entendam uma certa falta de expressividade do personagem, mas é bastante plausível para um homem que não consegue se ajustar por se julgar (e ser) diferente dos demais – algo como o Wolverine e tantos outros heróis com superpoderes. 

O Homem de Aço é um filme carregado daquelas boas reflexões que contribuem para não esvaziar uma produção que se propõe ao entretenimento. Na verdade, a narrativa do Superman em si já carrega essa abordagem, que foi bem trabalhada por Zack Snyder. O que tornar o personagem grandioso não são seus superpoderes, seus feitos heróicos, mas os valores que carrega, fruto de uma boa essência – por ser filho de Jor-El e Lara – e de uma boa criação, por ter sido adotado pelos Kent. Ainda assim, o Superman é humano – embora extraterreno – porque luta todos os dias para superar suas próprias fraquezas.

Zack Snyder conseguiu uma representação digna do personagem da DC Comics como não se via desde 1978. Aos fãs que sentirem um certo estranhamento após assistir  ao filme, vale lembrar que, nos quadrinhos, o personagem passou por várias fases e, portanto, o filme pode ser como a Era de Ouro das HQs: diferente, mas sem perder a essência. 

Publicado na edição do dia 13 de julho de 2013 do Jornal O Estado do Maranhão

Somos tão jovens

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A primeira providência a ser tomada após sair da sessão de Somos tão jovens é passar na livraria mais próxima e comprar a biografia O Filho da Revolução, de Carlos Marcelo, que deve ser uma representação muito melhor da vida e obra de Renato Russo que o longa-metragem dirigido por Antonio Carlos da Fontoura.

Talvez o grande problema da cinebiografia nem seja o seu fraco roteiro – com algumas frases extraídas de composições conhecidas do cantor e compositor, que soam forçadas demais na boca do personagem -, mas as interpretações pífias da maior parte do elenco que, na maioria dos casos, prende-se tão somente a trejeitos e semelhança física com os músicos que vivem na telona, o que não é suficiente para deixar o filme crível.

A cinebiografia aborda parte da juventude de Renato Russo, época da criação do Aborto Elétrico, primeira banda do músico, ao lado dos irmãos Fê e Flávio Lemos – que depois formaram o Capital Inicial, com Dinho Ouro Preto –, a tentativa de se apresentar como um “trovador solitário” e o início do Legião Urbana. O período é interessante – o ensaio de uma cena punk de Brasília, que deu origem a algumas das bandas mais representativas do rock nacional das décadas de 80 e 90 –, mas a maneira como a história foi contada é superficial e pouco convincente. O fato de o filme ser livremente inspirado na vida de Renato Russo também não ajuda a acreditar que tudo se passou como no filme.

Ainda assim, nada compromete tanto o longa-metragem quanto o elenco. Thiago Mendonça – que já interpretou o cantor Luciano no (bom) filme Dois filhos de Francisco – é, na maior parte do tempo, caricato demais, mas tem alguns bons momentos, principalmente quando canta; Bruno Torres, no papel do baterista Fê Lemos, é um dos poucos que consegue convencer; Edu Moraes, que interpreta Herbert Viana, chega a lembrar um personagem de programa de humor de tão ruim que é – por sorte, ele aparece em poucas cenas -; Ebsen Perucci (Dinho Ouro Preto), Conrado Godoy (Bonfá) e Nicolau Villa-Lobos (que interpreta o pai, Dado) também contribuem – negativamente – com suas fracas atuações. Até mesmo os experientes Marcos Breda e Sandra Converloni, que vivem os pais de Renato, parecem personagens de alguma sitcom.

Mas nem todas as interpretações são sofríveis em Somos tão jovens. Bianca Comparato, intérprete da irmã do músico, Carmem Teresa, e Laila Zaid, que vive a Aninha, são gratas surpresas. Mesmo vivendo uma personagem que não existiu na vida de Renato Russo – na verdade, ela representa todas as amigas que o músico teve -, ela consegue ser a mais convincente do elenco. É uma pena que a história de amor fraternal entre Renato e Aninha – que rende as melhores cenas do filme – seja uma invenção, pois é o que vale no filme. Dizer que a trilha sonora de Somos tão jovens é o que há de melhor no longa-metragem é de uma obviedade sem tamanho, afinal são músicas do Renato Russo – qualidade indiscutível.

Filmes que contam a história de personalidades conhecidas, em geral, dispõem da boa vontade de fãs – mesmo os de ocasião –, admiradores ou meros curiosos para serem bem sucedidos nas bilheterias, mas nem os milhares de reais que Somos tão jovens provavelmente arrecadará conseguirão apagar todos os problemas do longa-metragem. O que deveria ser uma boa representação de um músico cheio de nuances, compositor dos mais criativos, figura controversa, ácido crítico das mazelas do país, assim como aconteceu com Cazuza, o tempo não para – que tem suas falhas, mas consegue convencer e emocionar, principalmente por causa da interpretação de Daniel Oliveira -, fica na intenção. Pena. Quem sabe nas próximas tentativas!