Somos tão jovens

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A primeira providência a ser tomada após sair da sessão de Somos tão jovens é passar na livraria mais próxima e comprar a biografia O Filho da Revolução, de Carlos Marcelo, que deve ser uma representação muito melhor da vida e obra de Renato Russo que o longa-metragem dirigido por Antonio Carlos da Fontoura.

Talvez o grande problema da cinebiografia nem seja o seu fraco roteiro – com algumas frases extraídas de composições conhecidas do cantor e compositor, que soam forçadas demais na boca do personagem -, mas as interpretações pífias da maior parte do elenco que, na maioria dos casos, prende-se tão somente a trejeitos e semelhança física com os músicos que vivem na telona, o que não é suficiente para deixar o filme crível.

A cinebiografia aborda parte da juventude de Renato Russo, época da criação do Aborto Elétrico, primeira banda do músico, ao lado dos irmãos Fê e Flávio Lemos – que depois formaram o Capital Inicial, com Dinho Ouro Preto –, a tentativa de se apresentar como um “trovador solitário” e o início do Legião Urbana. O período é interessante – o ensaio de uma cena punk de Brasília, que deu origem a algumas das bandas mais representativas do rock nacional das décadas de 80 e 90 –, mas a maneira como a história foi contada é superficial e pouco convincente. O fato de o filme ser livremente inspirado na vida de Renato Russo também não ajuda a acreditar que tudo se passou como no filme.

Ainda assim, nada compromete tanto o longa-metragem quanto o elenco. Thiago Mendonça – que já interpretou o cantor Luciano no (bom) filme Dois filhos de Francisco – é, na maior parte do tempo, caricato demais, mas tem alguns bons momentos, principalmente quando canta; Bruno Torres, no papel do baterista Fê Lemos, é um dos poucos que consegue convencer; Edu Moraes, que interpreta Herbert Viana, chega a lembrar um personagem de programa de humor de tão ruim que é – por sorte, ele aparece em poucas cenas -; Ebsen Perucci (Dinho Ouro Preto), Conrado Godoy (Bonfá) e Nicolau Villa-Lobos (que interpreta o pai, Dado) também contribuem – negativamente – com suas fracas atuações. Até mesmo os experientes Marcos Breda e Sandra Converloni, que vivem os pais de Renato, parecem personagens de alguma sitcom.

Mas nem todas as interpretações são sofríveis em Somos tão jovens. Bianca Comparato, intérprete da irmã do músico, Carmem Teresa, e Laila Zaid, que vive a Aninha, são gratas surpresas. Mesmo vivendo uma personagem que não existiu na vida de Renato Russo – na verdade, ela representa todas as amigas que o músico teve -, ela consegue ser a mais convincente do elenco. É uma pena que a história de amor fraternal entre Renato e Aninha – que rende as melhores cenas do filme – seja uma invenção, pois é o que vale no filme. Dizer que a trilha sonora de Somos tão jovens é o que há de melhor no longa-metragem é de uma obviedade sem tamanho, afinal são músicas do Renato Russo – qualidade indiscutível.

Filmes que contam a história de personalidades conhecidas, em geral, dispõem da boa vontade de fãs – mesmo os de ocasião –, admiradores ou meros curiosos para serem bem sucedidos nas bilheterias, mas nem os milhares de reais que Somos tão jovens provavelmente arrecadará conseguirão apagar todos os problemas do longa-metragem. O que deveria ser uma boa representação de um músico cheio de nuances, compositor dos mais criativos, figura controversa, ácido crítico das mazelas do país, assim como aconteceu com Cazuza, o tempo não para – que tem suas falhas, mas consegue convencer e emocionar, principalmente por causa da interpretação de Daniel Oliveira -, fica na intenção. Pena. Quem sabe nas próximas tentativas!

Apenas um cara legal do rock!

Biografia Nada a Perder, de Michael Heatley, conta a trajetória de Dave Grohl, líder do Foo Fighters e ex-baterista do Nirvana

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Diante de um público de 75 mil pessoas, em um país onde havia estado apenas duas vezes na vida, Dave Grohl parecia admirado como se nunca tivesse estado diante de uma platéia tão numerosa. O show no Festival Lollapalooza em abril deste ano, em São Paulo, foi mais uma das fortes emoções na vida do líder do Foo Fighters ou pelo menos é assim que ele demonstra encarar cada passo em sua já consolidada carreira de músico. E como fica claro na biografia Nada a perder, de Michael Heatley, lançada no ano passado, o encanto de Grohl em relação ao que poderia já ter se tornado trivial é o que o torna uma das figuras mais carismáticas do meio musical.

O livro começa com breves relatos da infância e adolescência de David Eric Grohl – que nasceu no dia 14 de janeiro de 1969, na cidade de Warren, Ohio (EUA) – mas logo entra no que de fato interessa na vida de Dave para os fãs que angariou ao longo de sua vida: a música. E é isso o que a publicação oferece nas próximas 240 páginas. Sem grandes pretensões literárias – nesse ponto, aliás, o livro peca com grande quantidade de erros -, Nada a perder é uma boa fonte de referências musicais para quem gosta de rock, punk, grunge e afins.

Antes de iniciar sua jornada musical, Dave Grohl já era um amante da boa música, talvez muito por influência de sua mãe – que havia cantado em um grupo vocal na juventude – e do pai, que tocava flauta e gostava de jazz, ou mesmo por viver na zona rural de Virgínia, onde nada o interessava muito. Suas referências musicais vão desde B-52’s a Kiss, passando por Sex Pistols e Beatles, com grande destaque para o Led Zeppelin, uma de suas bandas favoritas. Daí para aprender a tocar instrumentos musicais não demorou muito.

Na adolescência, Dave Grohl começou a tocar guitarra, mas logo se apaixonou por bateria, segundo o biógrafo, após ver o Devo, uma banda de estilo robótico de Akron, Ohio. Mas foi no baterista John Bonham do Led Zeppelin que Dave mais se inspirou. Cada vez mais, o então adolescente se viu compelido a fazer música e não apenas consumi-la. Aos 15 anos, Grohl estreou como guitarrista-base da banda Freak Baby, em Washington, passando, seis meses depois, a baterista. “Eu não tinha ideia de como montar a bateria, mas eu amava simplesmente bater nela até cansar”, afirmou o músico.

A banda passou a se chamar Mission Impossible e chegou a gravar um single de 7 polegadas (EP). O talento do jovem Grohl começou a ser notado na cena punk rock local, o que o levou a ficar cada vez mais próximo do meio musical e distante de outros empregos mais formais. O músico teve ainda uma banda chamada Dain Bramage até ser convidado a tocar bateria na banda Scream – criada pelos irmãos Franz e Pete Stahl em 1979 e considerada uma lenda do hardcore – seu último degrau antes do Nirvana.

 

Nirvana – O vocalista Kurt Cobain e o baixista Krist Novoselic já desfrutavam de relativa notoriedade com o Nirvana – por causa do disco Bleach -, quando Dave Grohl ficou sabendo que a banda precisava de um novo baterista para substituir Chad Channing. Embora tenha ficado reticente em deixar o Scream, Grohl aceitou um convite de Krist para participar de uma audição em Seatle.

Já no Nirvana, Dave vivenciou a trajetória de uma das bandas mais importante dos anos 90, principalmente após o lançamento do disco Nevermind. Os shows foram se tornando cada vez maiores, o que parecia sufocar o obscuro Kurt Cobain, com quem Dave chegou a morar por oito meses. “A gente sentava nesse pequeno apartamento em forma de caixa de sapatos por oito horas durante um dia sem dizer nenhuma palavra”, afirma Grohl em uma passagem do livro. A convivência com os dois colegas de banda era harmônica, mas nem de longe lembrava a cumplicidade com os irmãos Stahl, o que piorou consideravelmente com o início do namoro de Kurt com Courtney Love, vocalista da banda Hole, de quem Dave Grohl chegou a ser amigo.

À medida que o sucesso do Nirvana aumentava, seu vocalista imergia cada vez mais no mundo das drogas até o seu fim trágico, quando se suicidou em 9 de abril em 1994. Somente 15 anos depois do acontecimento – já com o Foo Fighters como uma banda bem sucedida – é que Dave Grohl conseguiu falar de forma mais clara sobre o assunto no documentário Back & Forth, dirigido por James Moll, lançado no ano passado. Mas até chegar a esse ponto, Grohl teve de lidar com cobranças, críticas, desconfianças e situações desconfortáveis.

 

Foo Fighters – Após a morte de Cobain, restavam duas alternativas ao então baterista: viver à sombra do seu passado no Nirvana e o luto permanente por seu colega ou seguir a vida e continuar fazendo música, sua grande paixão. E foi assim que Grohl deixou as baquetas e assumiu os vocais de sua própria banda, que começou como um projeto de um homem só – com a gravação do primeiro CD, Foo Fighters, com todos os instrumentos tocados por Grohl; e posteriormente como uma banda consolidada, após algumas mudanças em sua formação: a primeira teve o baterista William Goldsmith, o baixista Nate Mendel – que permanece até hoje – e o guitarrista Pat Smear, que chegou a tocar com o Nirvana.

O lançamento do segundo disco da banda é marcado por mudanças em seus integrantes: sai Goldsmith e entra Taylor Hawkins. Pouco tempo depois, Pat Smear também deixa o Foo, dando lugar a Franz Stahl – antigo companheiro de Dave da banda Scream -, que pouco tempo depois foi substituído por Chris Shiflett, guitarrista que permanece na banda. Só no terceiro álbum do Foo Fighters – There is nothing left to lose – é que o grupo finalmente se viu com uma formação que se manteria até os dias de hoje, o que parece ter contribuído para que os trabalhos evoluíssem.

Musicalmente, o Foo Fighters tem a cara de seu criador e líder, embora com importantes contribuições de seus demais integrantes. Aliás, o fato de a banda conseguir elevar a qualidade de suas músicas ano após ano pode ser atribuído à harmonia que existe entre Grohl, Mendel, Shiflett e Hawkins, o que é comprovado com shows cada vez mais lotados – como o Lollapalooza deste ano no Brasil – e prêmios como o Grammy.

No ano passado, o Foo Fighters lançou o álbum Wasting Light, gravado no estúdio particular de Dave Grohl, muito elogiado pela crítica especializada. As gravações seguiram em um clima familiar, com os integrantes da banda próximos de suas famílias, como pôde ser visto no documentário Back & Forth, que acompanha a produção do disco sucessor de Echoes, Silence, Patience and Grace, lançado em 2007.

Paralelamente ao Foo Fighters, Dave Grohl nunca deixou sua verve baterista adormecida. Aceitou participar de projetos que evidenciam sua versatilidade musical e contribuem para comprovar sua fama de “o cara mais legal do rock”, reforçada em sua biografia. Só para citar algumas dessas participações especiais: Queen of Stone age, Paul McCartney, Nine Inch Nails, Tom Petty, Killing Joke, Tony Iommi, David Bowie, Prodigy, Garbage, Cat Power, Mike Watt, além dos projetos Probot e Them Crooked Vultures.

Dezessete anos depois de criar o Foo Fighters, Dave Grohl, aos 43 anos, está casado, é pai de duas filhas, mas ainda faz música com a mesma paixão do início, como fica claro nas páginas de Nada a perder e no documentário Back & Forth. Nada mais natural, portanto, que o anúncio de que a banda daria um tempo – palavras do próprio Grohl durante um show no dia 26 de agosto – seja visto com descrédito por quem se acostumou a acompanhar a carreira do músico, que já recebeu o título de “Gênio Divino” por uma revista especializada em rock. E seguindo sua própria filosofia, explícita nas páginas finais do livro, resta esperar para saber o que vem pela frente.

A Era do Gelo 4

É de se imaginar que, ao chegar à sua quarta sequência, um filme perca um pouco do fôlego inicial ou mesmo padeça com as repetições na história. Não é o que acontece em A Era do Gelo 4, em cartaz nos cinemas locais, que traz o tigre Diego, o mamute Manny e a preguiça Sid em mais uma aventura ocasionada por um desastre natural.

Dessa vez, o atrapalhado esquilo Scrat causa a separação dos continentes ao tentar enterrar a sua noz, acabando com a tranquilidade de Manny e sua família – a mamute fêmea Ellie e a filha adolescente Amora – e, por tabela, de seus amigos inseparáveis.

Por causa de um terremoto, que resulta em drásticas mudanças geográficas, Manny, Sid e Diego acabam indo parar em um enorme iceberg, que é levado pela corrente marítima. Longe de sua família – que busca um local seguro para se abrigar – Manny terá de enfrentar piratas comandados por um macaco malvado.

Dois aspectos permeiam toda a série cinematográfica: a luta dos animais pela sobrevivência em momentos de grandes mudanças naturais e a amizade improvável que une um mamute, um tigre dentes-de-sabre e uma preguiça. Qual seria, então, a novidade neste quarto longa-metragem? Os novos personagens que são incorporados à trama. Se um Sid sozinho já rende muita diversão, imagina com uma avó amalucada ao seu lado? Pois a vovó preguiça, que acaba no mesmo iceberg dos três amigos depois de ter sido abandonada pela família, é uma atração à parte. Embora pareça sempre um peso morto – por causa da idade avançada -, ela tem contribuições fundamentais para que a turma consiga vencer seus inimigos.

Outros personagens que enriquecem a história são os adolescentes Amora – filha de Manny e Ellie – e o gambá Luís. Os dois são melhores amigos, até que a mamute descobre outros mamutes bem descolados. Tudo bem que, mesmo em uma animação, os adolescentes rebeldes são meio irritantes, mas Amora logo acaba percebendo a importância dos valores familiares e de uma verdadeira amizade.

São essas reflexões presentes no roteiro que tornam o filme atrativo não apenas para o público infantil, mas para os adultos que gostam de animações. Aliás, o que não faltam, nos últimos anos, são produções inteligentes e que atraem crianças e adultos. A própria série A Era do Gelo é um desses exemplos. Longe de qualquer didatismo – que seria um pouco irritante em se tratando de um produto destinado ao entretenimento -, os longas-metragens de animação têm conseguido apresentar um conteúdo que leva a reflexões importantes, como a confiança entre pais e filhos e a tolerância com as diferenças, por exemplo.

A Era do Gelo 4 tem ainda mais um ponto a seu favor: o fato de não se reportar tanto às produções anteriores, o que facilita que espectadores que não assistiram aos três primeiros filmes possam acompanhar a história sem prejuízos. E se fosse para apontar um aspecto negativo, por puro patriotismo seria apenas o fato de o brasileiro Carlos Saldanha ter deixado a direção da série – ele dirigiu os três primeiros filmes – para tomar a frente da produção de Rio, passando o bastão para Steve Martino e Mike Thurmeier. Mas nada que tenha abalado a qualidade da produção.

Sons do corpo para crianças

Após 16 anos produzindo percussão corporal , grupo paulista Barbatuques lança o CD Tum Pá, primeiro projeto inteiramente voltado para o público infantil,

Fazer música para criança é tarefa para poucos. Primeiro porque envolve um público cuja atenção rapidamente se dispersa; e segundo porque esse é um segmento para quem tudo ainda é uma grande novidade, por isso, quem se aventura nessa missão tem a responsabilidade de formar o gosto de futuros consumidores de (boa ou não) música. Além disso, também é preciso agradar aos pais dos pequenos. Lançado este ano pelo grupo paulista Barbatuquess, que há 16 anos é referência em percussão corporal, o CD Tum Pá atinge todos esses (e outros) objetivos.

Utilizando sons produzidos pelo próprio corpo, além de vocalizações, cantigas de roda, onomatopéias, vozes infantis, com 14 faixas, o CD é um deleite aos ouvidos de crianças de todas as idades e de pais que, por vezes, não têm outra alternativa a não ser ouvir as mesmas músicas à exaustão. A sensação que se tem desde a primeira audição é que as músicas têm a capacidade de levar a aprendizados de forma lúdica. É como se tudo fosse uma grande brincadeira que naturalmente despertasse o interesse das crianças para imitar os sons que ouve. Ou seja, ideal para a fase pré-escolar.

O CD alterna canções com apenas onomatopéias, como Hit Percussivo, que abre o disco, Cromossom e Orquestra Maluca; releituras de tradicionais cantigas de roda, como Repetisom – Marcha da Borboleta, Sambalele, Escravos de Jó e Peixinhos do Mar/Marinheiro Só, além de algumas composições do grupo, como as belas Tanto Tom e Tum Pá e a divertida Caquinha. Embora todo o disco seja um convite a explorar o mundo dos sons, em faixas como Que som e Mãos a obras e pé na tábua as crianças são estimuladas a participar de forma mais ativa. Em Jogo de encaixar, os pequenos são chamados a interagir ainda mais, brincando com o botão que controla o volume das caixas de som.

É de se espantar que um grupo com um apelo tão forte com o público infantil, como eles mesmos afirmam, tenha demorado tanto tempo para mergulhar mais fundo nesse universo. É de se espantar, mas não de se lamentar, pois Tum Pá chega em boa hora, quando faltam bons produtos para esse segmento.

O CD foi gravado entre janeiro e março deste ano por André Magalhães e Beto Mendonça. O projeto gráfico é de André Hosoi e inclui ilustrações de Ionit Zilberman. Para deixá-lo ainda mais interativo, o encarte dispõe de um jogo de tabuleiro. Desde o mês de julho, os Barbatuquess já realizaram vários shows por São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, depois da estreia do show Tum Pá na França. A expectativa agora é que o projeto seja registrado em DVD.

Trajetória – Criado em 1996 pelo músico Fernando Barba, o núcleo artístico e pedagógico Barbatuques partiu de uma premissa muito simples, atingindo resultados bastante complexos: produzir música orgânica. Além da voz, a sonoridade do grupo é alcançada por meio de palmas, estalos, batidas, tudo em perfeita harmonia. Também chama a atenção a presença cênica dos integrantes do Barbatuques, que nas apresentações de Tum Pá sentem-se ainda mais livres para criar performances e novas formas de interação com o público. O grupo conta com 15 integrantes: André Hosoi, Marcelo Pretto, André Venegas, Dani Zulu, Flávia Maia, Giba Alves, João Simão, Lu Horta, Heloiza Ribeiro, Mairah Rocha, Maurício Maas, Renato Epstein, Charles Raszl e Lu Cestari.

Com Tum Pá, o Barbatuques deve conquistar definitivamente o público infantil – desde os que ainda estão começando a fazer suas primeiras experimentações sonoras e emitir seus “papás” e “mamás” até os que já dominam completamente a fala -, e, por tabela, pais interessados em treinar o ouvido dos filhos para os bons sons do mundo.

 

Seviço:

CD: Tum Pá

Ficha técnica:

Realização: Núcleo Barbatuques

Produção artística: Núcleo Barbatuques

Produção técnica: André Magalhães

Ilustrações: Ionit Zilberman
Projeto gráfico: André Hosoi
Direção de produção: Nancy Silva

Preço médio: R$ 34,90

Mais informações: http://www.tumpa.com.br

Lola

A fotografia escura ilustra bem os dramas dos personagens centrais do filme Lola. Isso sem falar na chuva constante, uma dificuldade a mais a ser superada por Sepa e Puring, duas avós para quem o sol parece nunca brilhar. Uma luta para dar um enterro digno ao neto que foi assassinado; a outra não mede esforços para diminuir o sofrimento do neto que cometeu um crime. Em determinado momento da trama, os caminhos das duas senhoras se cruzam exatamente porque o neto de Puring é o assassino do neto de Sepa.

O cineasta filipino Brillante Mendonza começa a contar essa história a partir do drama de Sepa. As dificuldades enfrentadas pela mulher são ilustradas logo no início do longa, na simples tentativa de acender uma vela no local onde, na noite anterior, o neto fora assassinado. O vento que anuncia uma forte chuva na cidade de Manila tenta impedir aquela pequena luz de iluminar um pouco a vida daquela família. Esse é só o início de mais um dia difícil na vida de Sepa, sempre na companhia do neto mais novo.

Em um outro ponto de Manila, Puring leva uma vida não menos desafortunada. Além de trabalhar como feirante, ainda precisa cuidar do filho com problemas mentais. Isso sem falar na batalha para tirar o neto da prisão. Tudo isso enfrentando as limitações próprias da idade avançada – assim como no caso de Sepa. É na tentativa de dar dignidade aos netos – assassino e assassinado – que as duas mulheres se encontram, primeiro com uma certa hostilidade, mas depois com uma quase compreensão dos dramas vividos por ambas.

Lola é um filme de origem Filipina, mas universal como deve ser o bom cinema. Brillante Mendonza parece querer mostrar que os dramas protagonizados por mulheres que são mães duas vezes e já acumulam muitos anos de batalha independem de diferenças culturais e condições financeiras. Além disso, a produção ainda faz um recorte interessante de um país pouco conhecido pelos brasileiros. Apesar da distância geográfica, o diretor do longa-metragem conseguir perceber semelhanças entre Brasil e Filipinas em sua recente passagem por São Luís – o filme abriu o I Festival Internacional Lume de Cinema, encerrado no último dia 23 de julho.

No entanto, vale ressaltar que Lola tem um ritmo um pouco lento que pode desagradar alguns expectadores. Mas quem quiser experimentar um cinema quase desconhecido – principalmente aqui em São Luís – pode conferir a produção no Cine Praia Grande, em cartaz até o dia 4 de agosto, com sessões às 16hs, 18hs e 20hs e tirar suas próprias conclusões.

 

*Texto publicado na edição do dia 31 de julho de 2011 do Jornal O Estado do Maranhão

Apenas o fim

Cinema com cara de cinema! História simples, roteiro bem amarrado, poucos recursos técnicos, edição inteligente, atuações precisas, direção competente… Entre tantas produções cinematográficas que utilizam todos os tipos de artifícios, mas que, na realidade, não conseguem dizer a que vieram, o filme brasileiro “Apenas o fim” é a prova que cinema de verdade é fruto de uma boa idéia e de muita vontade. E só.

Idéia de uma mente fervilhante ainda em pleno processo de aprendizagem em uma Faculdade de Cinema do Rio de Janeiro e vontade de uma equipe enxuta, porém muito competente. O diretor e roteirista Matheus Sousa reuniu o seu time, ali mesmo nos prédios da Universidade que frequenta, para uma produção que ele julgou que, após finalizada, seria vista apenas por sua mãe. Ledo engano! Não apenas o filme chamou a atenção do público, como da crítica, conquistando os prêmios de Melhor Filme, segundo o Júri Popular, no Festival do Rio de 2009 e na 32ª Mostra de São Paulo, além de ter sido incluído nas seleções oficiais dos Festivais de Rotterdam e de Miami.

Antonio (Gregório Duvivier) e Adriana (Erika Mader) são estudantes de cinema e namorados há algum tempo. Um dia, sem muitas explicações, Adriana resolve dar novos rumos à sua vida e terminar com Antonio, com quem tem apenas uma hora antes de seguir em frente. Esta última hora juntos serve como um resgate do relacionamento dos jovens, com direito a flashbacks de alguns dos momentos mais marcantes das trivialidades que caracterizam a vida de qualquer casal.

Enquanto passeiam pela faculdade que testemunhou o início – e agora o fim – daquele relacionamento, Antonio tenta dissuadir Adriana da idéia de ir embora, até resignar-se com aqueles poucos momentos que ainda dispõem juntos. Assim, sem dramas, quase bem resolvidos, eles protagonizam diálogos divertidos e cativantes, que não cansam mesmo o espectador já tão acostumado a um cinema rebuscado – o que não significa de qualidade. Os cortes rápidos e as transições entre cenas do presente e do passado dos personagens garantem uma agilidade que muitos duvidariam ser possível em uma produção quase exclusivamente centrada em dois personagens. Aliás, os momentos em que interagem com alguns poucos coadjuvantes são perfeitamente dispensáveis, tamanho é o entrosamento entre os protagonistas da história.

Mais que uma comédia romântica, “Apenas o fim” também é o retrato de uma geração “sem grilos”, com todas as referências à cultura pop que lhes são caras, o que torna ainda mais interessante essa produção. Mais ainda: é a prova que o que torna um projeto cinematográfico bem-sucedido é muito mais criatividade e talento que financiamentos e tecnologia.

 

Ficha Técnica:

Título: Apenas o Fim

Ano: 2008
Direção: Matheus Souza

Elenco: Érika Mader, Gregório Duviver, Nathalia Dill, Álamo Facó, Julia Gorman, Marcelo Adnet, Anna Sophia Folch

As mães de Chico Xavier

A maternidade não começa quando o filho nasce; começa meses antes disso, quando aquele pequeno ser humano é apenas um borrãozinho em uma tela. A maternidade também não termina quando, por alguma fatalidade, aquele filho morre; prolonga-se muito mais que isso, até outras vidas, para quem assim acredita. As doze mães que perderam seus filhos no Massacre em Realengo, no Rio de Janeiro, por exemplo, continuam sendo mães, embora agora com cicatrizes para toda a vida. Cicatrizes que, para algumas mulheres na mesma situação, tornaram-se menos dolorosas graças à existência do médium Chico Xavier.

Encerrando as comemorações do centenário de nascimento do maior médium do Brasil, o filme As mães de Chico Xavier – produzido pela Estação Luz Filmes e dirigido por Glauber Filho e Halder Gomes – fecha uma espécie de trilogia espírita, provando que esse é um nicho que tem grande empatia popular e, por isso, precisa ser mais explorado. Vale ressaltar que, apesar de ter um foco mais direcionado nos seguidores ou simpatizantes da Doutrina Espírita, produções como Chico Xavier, Nosso Lar e As mães de Chico Xavier também têm forte apelo junto a espectadores que procuram as salas de cinema em busca de histórias que ressaltam valores como amor ao próximo, perdão e caridade.

Embora não seja uma produção tão caprichada quanto Chico Xavier – mas ainda assim melhor dirigida que Nosso Lar -, As mães de Chico Xavier é a obra fílmica que retrata com mais exatidão a missão do médium em vida. Enquanto a primeira produção acompanha o desenvolvimento de sua mediunidade, a repercussão que causou até chegar à sua notoriedade, esta terceira produção retrata Chico Xavier como ele gostava de ser visto: apenas um instrumento a serviço de um bem maior.

O filme centra-se na história de três mulheres em momentos distintos da maternidade: Ruth (Via Negromonte) é mãe de Raul, um rapaz que enfrenta problemas com as drogas; Elisa (Vanessa Gerbelli) é mãe do pequeno Théo, de apenas 4 anos; e Lara (Tainá Müller) descobre-se grávida do namorado e cogita a possibilidade de fazer um aborto. Em comum, episódios trágicos que levam essas mulheres a se juntar a tantas outras que buscam conforto nas cartas psicografadas pelo médium Chico Xavier.

A história de mães que perderam seus filhos e, tempos depois, conseguiram receber comunicações do plano espiritual é contada pelo jornalista Karl (Caio Blat), que passa da incredulidade à emoção ao entrar em contato com esses relatos. Ele funciona também como uma espécie de elo entre o médium, Lara e Ruth.

É claro que As mães de Chico Xavier tem seus altos e baixos, algumas pontas soltas e, em alguns momentos, uma certa falta de ritmo, mas, no geral, o filme atinge seus objetivos: emociona e leva à reflexão. Nos créditos finais, por exemplo, é difícil ficar indiferente à dedicatória a todas as crianças vítimas de aborto provocado, ainda mais depois de acompanhar histórias de mães que dariam tudo para não terem perdido seus filhos.

A maternidade é antes de tudo uma oportunidade de amar sem medidas, da forma mais sublime e inexplicável que Deus criou, com todas as dores e sabores que esta experiência proporciona. Amar uma criaturinha ainda sem rosto ou nome, mas que, em breve, será mais importante que tudo.

“Do ventre nasce um novo coração”

Dedico este texto a(o) meu (minha) filho (a) que já é tudo pra mim