Muito além de um filme de ação

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O título é o único senão no filme “Seqüestro do Metrô 123”, em cartaz no Box Cinemas, principalmente porque ele não dá a exata dimensão do que esperar desse longa-metragem dirigido por Tony Scott. Aparentemente, seria apenas mais um filme de ação, desses com muitas explosões, carros voando e um roteiro fraco e previsível – para dizer o mínimo. De fato, as seqüências de ação existem – embora não tão numerosas – mas elas são bem amarradas por uma história consistente.

Pra começar, o filme não tem aquela enrolação inicial que geralmente caracteriza esse tipo de produção, apresentando um pouco os personagens para, só então, entrar na ação propriamente dita. A apresentação do filme, com os créditos na tela, é frenética como um metrô quase desgovernado. Mas, a melhor parte da abertura do filme é a figura intimidadora de John Travolta. Sem cerimônia, ele toma de assalto um trem e dá início a quase duas horas bem aproveitadas na poltrona do cinema.

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Em um outro ponto, controlando o tráfego das linhas do metrô de Nova York, está um Denzel Washington se esforçando para ser um cidadão comum – inclusive com uns quilos a mais – tentando fazer o seu trabalho da melhor maneira possível. Mas é tudo o que ele não é. Walter Gambler era o cara certo no lugar errado – ou não. É ele quem está em contato com o Metrô 123 e percebe algo estranho. Daí por diante, ele torna-se a voz do outro lado da linha para o seqüestrador identificado como Ryder (o personagem interpretado por John Travolta).

Gambler é apenas um funcionário público, como faz questão de ressaltar sempre que pode, mas para Ryder é bem mais que isso: é o cidadão comum que todos os dias enfrenta o sistema representado pela cidade de Nova York. Falar com alguém que não responde aos interesses do governo e que, ainda por cima, transmite segurança e inteligência desperta empatia no seqüestrador. É nessa interação entre os veteranos atores que o filme atinge seus pontos altos. Aos poucos, os dois revelam um pouco do que são e Ryder estabelece uma conexão entre eles. Na verdade, como será visto ao final da projeção, um será a redenção do outro.

Quem já entrou em uma estação de metrô – o que só é possível para quem mora no Maranhão em viagens para outros estados do país – já deve ter percebido como o local é propício a servir de cenário para filmes. É quase um microcosmo, com pessoas indo e vindo, todas anônimas até que se detenha um pouco mais a atenção em uma delas e perceba que, em cada pessoa que parte de algum lugar para chegar a outro, existe uma rica história. Mas esse seria o roteiro óbvio, o que não é o caso da refilmagem dirigida por Tony Scott. Aqui não sobra espaço para que outras histórias se sobreponham, apenas as de Gambler e Ryder e, mesmo assim, somente o que é necessário ser mostrado.

Mas, além das histórias dos personagens, “Seqüestro do Metrô 123” é também um novo capítulo na trajetória de Denzel Washington e John Travolta. É até estranho pensar como os dois atores demoraram a contracenar em uma produção. Travolta tem uma cinematografia marcada por altos e baixos, mas que, nos últimos anos, ganhou maior regularidade.

Já o caso de Washington é mais peculiar. Regularidade é o que não falta na carreira de Denzel Washington, marcada sempre por papéis engajados ou cheios de carga dramática, mas que, para algumas pessoas, são muito parecidos. Apesar de já ter interpretado personagens tão diversos, como lutador de boxe, ativista negro, treinador de futebol americano e até gângster, é sempre como um policial – o herói da história – que ele é identificado. Ironicamente, “Seqüestro do Metrô 123” é quase uma metáfora da carreira de Denzel: por mais que lute e negue até para si mesmo, ele sempre acaba sendo o herói.

Obs: Resenha publicada no Jornal O Estado do Maranhão

Mais do mesmo

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Existem pessoas que simplesmente nasceram para determinadas coisas, enquanto outras podem se esforçar o quanto quiseram, mas nunca conseguirão. Sandra Bullock nasceu para comédias românticas, daquelas que muitas pessoas criticam, mas que têm o poder mágico de desviar nosso pensamento por algumas horas para algo bobo, repetitivo, mas relaxante. Uma comédia romântica é como uma bacia de água quente nos pés cansados no final do dia: não é uma necessidade, mas faz muito bem quando se está precisando.

A proposta é um filme com tudo o que já vimos antes – inclusive Sandra Bullock: o casal que está muito próximo, mas não consegue enxergar um ao outro; o pretexto meio estapafúrdio que os aproxima e faz com que se conheçam de verdade; o momento da separação até o desfecho feliz. Margareth Tate é uma editora poderosa e implacável, que parece não ter nem um pouco de sensibilidade para lidar com os outros. Ao seu lado, o seu assistente Andrew, profissional dedicado que luta por uma chance para ser promovido ao cargo de editor.

Àquela altura, o espectador já sabe que provalvemente Margareth é uma boa pessoa que só resolveu vestir uma armadura para se proteger do mundo que a machucou e que, mais cedo ou mais tarde,  Andrew perceberá isso e os dois se apaixonarão. A ocasião perfeita acontece quando Margareth, que é canadense, recebe a notícia de que será deportada por não ter resolvido problemas com a sua documentação. Nesse momento, surge o servil Andrew, que torna-se a solução para os problemas de Margareth: os dois deverão se casar. Mas, para conseguir ludibriar a imigração, terão que ser convicentes como um casal. Eles têm um final de semana na Austrália, ao lado da família de Andrew, para se conhecerem melhor.

Daí pra frente, tudo segue a velha fórmula de Hollywood, no melhor estilo mais do mesmo. O que há de novo são algumas cenas hilárias de Sandra Bullock, como o momento do ritual de agradecimento à Mãe Terra ao lado da avó de Andrew. A proposta é só mais uma comédia romântica apropriada para os momentos de fossa, quando tudo que não se quer é pensar.

Meu achado: Kath Bloom

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Todo mundo sabe que cinema é som e imagem, mas, às vezes, somos seduzidos apenas pelo que a tela nos mostra e esquecemos de nos deixar levar pela música ou efeitos sonoros do filme. Sempre tento não deixar isso acontecer comigo, até porque respiro música. A minha vida tem trilha sonora.

E por causa desse meu interesse – que não é tão aprofundado quanto eu gostaria -, acabo descobrindo algumas coisas interessantes. A melhor dessas minhas descobertas foi a cantora norte-americana Kath Bloom, que passei a conhecer em uma das minhas cenas favoritas do filme Antes do Amanhecer (um dos meus favoritos). A cena se passa em uma loja de música, em Viena, que Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) visitam em sua curta temporada na cidade. Os dois dirigem-se a uma cabine de som para ouvir Come Here, que serve de trilha sonora para aquele amor que começa a nascer.

E foi a partir dessa linda canção que eu descobri Finally, disco de Kath Bloom, repleto de outras tantas músicas tão boas quanto à escolhida por Richard Linklater para o filme. É o caso, por exemplo, de It’s just a dream, A Homeless Dream e Who you are, tão suaves quanto a primeira faixa do CD. O estilo folk da cantora fica mais evidente em Forget about himI wanna love e Finally, que encerra o álbum.

Infelizmente não é tão fácil encontrar informações sobre a cantora nos sites de busca pela internet. Mas, com um pouco de paciência, dá para aproveitar esse som de qualidade, que me orgulho de ter descoberto.

Vontade e ação

Os Guapeuas do lago Aquiri
Os Guapeuas do lago Aquiri
Vendo em volta uma triste realidade
Vendo em volta uma triste realidade

Um vídeo de animação usando a técnica stop-motion, a mesma de grandes produções cinematográficas como A fuga das galinhas, poderia parecer algo muito distante da realidade de jovens da baixada maranhense. Mas basta que lhes sejam apresentadas as ferramentas corretas para que eles deixem a condição de espectadores e tornem-se produtores no processo de comunicação.

Como uma das avaliadoras do Prêmio Jovem Comunicador, iniciativa da Ong Formação que premia trabalhos de jovens de municípios da baixada maranhense atendidos pela entidade, pude perceber que, de condições por vezes consideradas adversas, podem surgir boas produções. Confesso que tive dificuldades em escolher apenas cinco vencedores, principalmente nas categorias Fotografia e Animação.

O tema proposto, Meio Ambiente, foi tão bem contemplado que estendeu o trabalho de julgamento além do previsto. Por mais que uma iniciativa como a da Formação seja válida tão somente por estimular a criatividade desses jovens e torná-los agentes de comunicação, é gratificante ver trabalhos de tanta qualidade.


No quesito fotografia, 178 fotos retrataram um pouco as belezas e as degradações em uma parte do Maranhão pouco conhecida por mim, infelizmente. Eram imagens de belos cenários, da ação humana na natureza – positiva ou negativamente -, da perfeição da fauna e da flora locais, feitas por jovens que aprenderam a apurar o olhar e captar cenas de seu próprio cotidiano. Além da beleza das fotos, surpreendeu-me a técnica de vários desses registros, considerando não se tratar de profissionais da área.


Também foi um deleite assistir às animações produzidas pelos jovens de municípios como Penalva, Arari, entre outros. Quando se pensa que um desenho de jovens da baixada é fruto apenas da criatividade desses meninos e meninas e das informações que receberam, uma animação da Pixar, que tem à disposição milhões de dólares para ser produzida e o que há de mais moderno em tecnologia, tem seus méritos um pouco mais reduzidos.


Na categoria Vídeos, as limitações técnicas tornaram-se um pouco mais visíveis. Embora as idéias tenham sido muito originais, a execução de algumas produções ficou prejudicada principalmente por problemas de áudio. Nada que comprometesse a iniciativa. Já no quesito Áudio, o que mais chamou a minha atenção foram as fortes mensagens sobre poluição, aquecimento global, desmatamento, algumas bastante criativas.


Mas, como jornalista, tive especial atenção com a categoria Textos. Mesmo com erros ortográficos ou falhas na construção das idéias, era visível nas produções a vontade desses jovens de encarar o desafio que é uma página em branco, mesmo para quem domina um pouco mais a técnica.


Por essa vontade de superar a inércia e fazer algo por si e pelos outros, todos esses jovens já são vencedores.

Animal exótico encontrado em Palmerândia
Animal exótivo encontrado em Palmerândia

O cinema e Jane Austen

Existem alguns componentes que são imprescindíveis em um bom filme de romance. Além do ingrediente amoroso, geralmente marcado por obstáculos a serem superados, é importante ter belos cenários, tramas bem construídas e personagens complexos – embora muitos desejem o final feliz, dependendo do contexto, ele não é tão necessário. Todo esse conjunto deve estar presente tanto na literatura quanto no cinema. Talvez seja por isso que as obras da escritora inglesa Jane Austen sejam tão apropriadas às telonas, mesmo tendo sido escritas no século XVIII.

A própria vida da britânica transformou-se em um filme, embora nem tudo que tenha sido retratado em Amor e Inocência (Becoming Jane) represente fielmente a vida da escritora, que tem uma biografia pouco conhecida e muito do que se diz sobre ela não passa de mera especulação. Sabe-se, por exemplo, que Austen nunca se casou, mas teve uma grande paixão. É exatamente esse amor não concretizado que serve de pano de fundo para a cinebiografia sobre a autora. O interessante é imaginar como alguém que vivenciou tão pouco o amor conseguiu abordá-lo tão bem em seus livros.

Toda essa genialidade para criar romances tão bem construídos levou Austen a ser reconhecida como uma das escritoras mais importantes da Inglaterra, ficando atrás apenas de William Shakespeare. Esse reconhecimento supera a barreira do tempo e cativa leitores de todo o mundo até os dias de hoje. Aliás, a admiração que os leitores da escritora exercem por ela também rendeu um filme. The Jane Austen Book Club conta a história de um grupo de pessoas que resolve se reunir para discutir seus próprios problemas a partir das obras de Austen.

Obra

A trajetória de Jane Austen foi breve, porém profícua em termos literários. A autora escreveu seis livros completos, são eles: Razão e Sensibilidade, Orgulho e Preconceito, Mansfield Park, Emma, Abadia de Northanger e Persuasão, além de alguns que nunca foram terminados. E como foi dito anteriormente, quase todas essas histórias foram bem aproveitadas no cinema, algumas sendo adaptadas enquanto outras serviram de inspiração – como em O Diário de Bridget Jones – ou tornaram-se uma espécie de referência na trama – como em A Casa do Lago, onde o livro Persuasão é componente importante na história.


Basta assistir a alguns dos filmes adaptados da obra de Jane Austen para perceber as semelhanças entre eles. O mais visível talvez sejam as bucólicas paisagens campestres da Inglaterra do século XVIII – semelhantes às que a própria escritora morava – e a personalidade forte de suas heroínas, como Elizabeth Bennet, de Orgulho e Preconceito, e as irmãs Dashwood, de Razão e Sensibilidade. Embora vivam em sociedades patriarcais, as figuras femininas são sempre o centro das histórias construídas por Austen. Nos dois casos citados, por exemplo, o pai morre logo no início da trama (Razão e Sensibilidade) ou então tem uma personalidade bastante maleável, como o patriarca da família Bennet.


É uma pena que Jane Austen não chegou sequer a conhecer o cinema, pois, certamente, teria gostado de ver seu universo tão bem representado.

Keira Knightley e Mathew McFayden, em cena de Orgulho e Preconceito
Keira Knightley e Mathew McFayden, em cena de Orgulho e Preconceito