Amor e fatos históricos em filme de animação

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Por Poliana Ribeiro e Ricardo Alvarenga

O Maranhão está representado no longa-metragem de animação Uma história de amor e fúria. O filme é uma saga de amor entre um casal de índios tupinambás, que atravessa 600 anos e tem um de seus capítulos vividos no Maranhão do século XIX, resultando na Balaiada, um dos maiores conflitos revolucionários do país.

A influência maranhense na produção, aliás, é bem maior que apenas nas cenas do longa-metragem, segundo o diretor Luiz Bolognesi revelou em entrevista exclusiva a O Estado por telefone. A Buriti Filmes, produtora de Uma História de Amor e Fúria, recebeu esse nome após experiência vivida por Luiz Bolognesi e sua sócia e esposa Laís Bodanzky há 13 anos, quando estiveram no Maranhão, produzindo curtas-metragens no interior do estado. Ao perceberem a quantidade de palmeiras de buriti que existia nas terras maranhenses, ficaram fascinados ao descobrir que na cultura local se propaga a ideia de que onde existe uma palmeira de buriti existe uma nascente de água. “O buriti gera uma espécie de oásis  Os índios disputam os lugares próximos aos buritizeiros, pois do buriti se aproveita tudo”, contou Luiz Bolognesi.

Sobre a escolha da Balaiada como uma das tramas mostrada no filme, o diretor explica que houve um processo de pesquisa da história do Brasil até chegar aos fatos retratados no filme. “Durante um ano, fiz uma pesquisa junto com alguns mestrandos de antropologia, história e psicologia sobre episódios da história do Brasil. Chegamos a 40 episódios. Precisávamos de um fato dramático, um grande evento da história e épico; algo que fosse bom para a dramaturgia”, explicou Bolognesi.

O filme mostra outro lado da Balaiada, retratando a versão de quem lutou para ser livre. O episódio mudou o curso da história do Brasil e deu destaque a personagens importantes como o Duque de Caxias – que no filme passa de herói a vilão. O cenário era a cidade de Caxias, lugar rico onde se conseguia muito dinheiro com a exploração do algodão. Desse fato, surgiu o cangaço, que teve suas primeiras manifestações no fim da Balaiada. O envolvimento de Dom Cosme, importante figura do movimento negro que vivia nos quilombos da região, também é apresentada no filme. Todos os nomes utilizados nos personagens do cinema são reais, fidedignos à história. “Nossa diretora de arte pirou com a possibilidade de retratar as paisagens maranhenses”, afirmou o diretor do filme.

Colocar essa outra versão para que as pessoas pudessem refletir sobre a história do Brasil é um dos objetivos do filme. “A história do Brasil é como a história da caroxinha. A Balaiada que aconteceu no Maranhão é pouco conhecida e é um fato extremamente importante, que mudou a história do Brasil”, afirmou Luiz Bolognesi.

Uma história de amor e fúria acompanha as várias vidas de um guerreiro Tupinambá, desde as primeiras tentativas da ocupação do país por franceses e portugueses até a luta pela água, um escasso recurso dominado por grandes corporações no Rio de Janeiro futurista de 2096. O guerreiro imortal se transforma em pássaro e se personifica – no maranhense Manoel do Balaio, em um guerrilheiro na época da Ditadura e em um desiludido jornalista carioca – sempre que encontra sua amada Janaína. É esse amor que une pontos tão distintos da história do país, real ou inventada.

Ousadia – Um pássaro como metáfora para a liberdade é um dos poucos clichês presentes no longa-metragem de animação. No mais, a produção dirigida por Luiz Bolognesi é pura inovação, tanto na estética – com elementos de HQs e grafic novels e uma certa semelhança com desenhos japoneses – quanto no roteiro, e aponta novos caminhos para o cinema nacional, cada vez mais ousado e fugindo dos velhos temas.

Com uma produção ainda tímida de longas-metragens de animação – este ano serão lançadas outras três produções do gênero -, a ousadia do filme começa pela escolha desse tipo de linguagem. Segundo Luiz Bolognesi, a idéia é exatamente fugir dos padrões vigentes no mercado cinematográfico. “O filme é ousado e inovador, visto como um risco pelo mercado. Mas nossa intenção é justamente produzir filmes que fujam do padrão de mercado”, explicou Bolognesi, roteirista de produções elogiadas como Bicho de Sete Cabeças e Chega de Saudade.

A inovação também está presente no roteiro, que reconta um pouco da história do Brasil, desconstruindo fatos e personagens e fazendo projeções por vezes apocalípticas, embora pautadas em situações reais, como a escassez da água em um futuro não muito distante. Ao retratar um guerreiro tupinambá que atravessa a morte para continuar buscando seu amor e lutando por liberdade, Luiz Bolognesi fugiu da imagem de submissão dos primeiros habitantes do Brasil, mostrando a luta dos tupinambás contra os tupiniquis, que se uniram aos portugueses. A figura heróica de Duque de Caxias, considerado um herói nacional, também é desconstruída no filme, que o mostra como o grande vilão da Balaiada.

Além da linguagem pop e do roteiro ousado, o filme também tem como outro chamariz as vozes dos atores Selton Mello, Camila Pitanga e Rodrigo Santoro dublando os personagens principais das histórias. Vale lembrar que, embora seja um longa-metragem de animação, a produção não é destinada ao público infantil e a classificação indicativa é para maiores de 12 anos.

Premiado em festivais nacionais e internacionais de cinema, o filme Uma História de Amor e Fúria já foi exibido em festivais de cinema do Rio de Janeiro e São Paulo e teve boa receptividade em competições internacionais, como de Miami e Holanda. Este mês a produção estará no Festival Internacional de Animação da Alemanha e também será apresentado no Central Prak em Nova Iorque, em julho.

Quatro animações nacionais chegam aos cinemas este ano

RIO – Limitado na última década a uma média de um longa-metragem por ano, o cinema de animação brasileiro vai experimentar pela primeira vez em seus 96 anos de história (inaugurada em 1917 com o desenho Kaiser, de Álvaro Seth Martins) o gostinho de emplacar quatro títulos em circuito comercial num período de 12 meses. Aclamado pela crítica internacional em festivais nos Estados Unidos e na Europa, Uma história de amor e fúria, produção de R$ 5 milhões dirigida por Luiz Bolognesi foi o primeiro da fila.

Em agosto é a vez de Até que a Sbórnia nos separe, rodado por Otto Guerra com base no espetáculo Tangos & tragédias. Em outubro, José Maia e Frederico Pinto lançam As aventuras do avião vermelho, garimpado da literatura de Érico Veríssimo. Em dezembro, é a vez do primeiro longa nacional em stop-motion (técnica usada em sucessos como Fuga das galinhas, na qual os objetos são animados quadro a quadro): Minhocas, de Paolo Conti e Arthur Nunes.

“Estamos em meio a um processo evolutivo de mercado na animação brasileira em que o aumento do número de incentivos ao setor estabeleceu um ciclo estável da produção. Antes, o dinheiro aparecia só vez por outra e, com isso, muito animador levava quase 10 anos para levantar um projeto”, diz Marta Machado, produtora de Até que a Sbórnia nos separe, já envolvida com A cidade dos piratas, também de Otto Guerra, baseado em HQs de Laerte. 

Diretor de Minhocas, Paolo Conti diz que o aumento de séries animadas brasileiras na TV, incluindo sucessos como Peixonauta e Meu AmigãoZão, já começa a oxigenar o setor. “Ainda que o aumento dos seriados possa desfalcar os longas ao mobilizar a mão de obra existente, ele atrai a atenção das TVs para a animação, fazendo com que os canais possam se tornar parceiros em nossos filmes”, avalia Conti.

Em paralelo ao filmes em curso, um intercâmbio entre o Brasil e dois polos cinematográficos dos EUA pode movimentar o mercado de animação no país: o cineasta Moacyr Góes, em parceria com Gustavo Cortês, fechou um contrato de coprodução (e troca de tecnologias) com o Studio C e a produtora Hammerhead para desenvolver longa a partir do segundo semestre. “A ideia é criar uma via de mão dupla para os animadores”, diz Góes, que dirigiu a animação Xuxinha e Guto contra os monstros do espaço (2005). “Queremos sofisticar nossa mão de obra e oferecer a ela visibilidade lá fora”.

Matéria publicada no Jornal O Estado do Maranhão

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Orgulho e Preconceito ainda cativa leitores, 200 anos depois

orgulho e preconceito

Difícil acreditar que o mundo de hoje ainda tenha espaço para heroínas castas como Elisabeth Bennet, personagem principal do livro Orgulho e Preconceito, da escritora britânica Jane Austen. Duzentos anos depois, a altiva Lizzy continua povoando o imaginário de leitores no mundo inteiro, tanto que, segundo reportagem publicada no portal G1, todos os anos são vendidas 50 mil cópias do livro apenas no Reino Unido. Comparada à vendagem do best seller norte-americano 50 tons de cinza, de EL James – foram 100 mil cópias em apenas duas semanas, na época do lançamento no Brasil -, a marca pode parecer risível, mas é bastante expressiva quando se leva em consideração que Orgulho e Preconceito foi escrito em 1813.

A popularidade do livro, mesmo passado tanto tempo de seu lançamento, pode ser atribuída às adaptações que a obra ganhou, sendo as mais famosas uma série de TV para a BBC – estrelada por Colin Firth – e o filme de 2005 dirigido por Joe Wright e protagonizado por Keira Knightley, mas também ao carisma de sua protagonista. Elisabeth Bennet é, certamente, uma das melhores heroínas criadas por Jane Austen, além de uma das personagens mais cativantes da literatura mundial.

Cheia de opinião em uma época em que as mulheres deveriam ser reservadas e submissas, Lizzy é a única de suas irmãs que não se sente pressionada a se casar, apesar dos seus 21 anos e da preocupação materna com um enlace. Para ela, isso só seria cogitado caso se apaixonasse profundamente, o que acaba acontecendo quando conhece o frio (ou aparentemente) Mr. Darcy. O improvável romance surge quando os dois começam a se encontrar por ser ele melhor amigo de Mr. Bingley, jovem cavalheiro que chega a Netherfiel e acaba se encantando por Jane, irmã mais velha de Lizzy. Aos poucos, Mr. Darcy e Lizzy conseguem superar suas primeiras impressões – este chegou a ser o título da obra – e perceber os encantos um do outro: ela descobre que o cavalheiro aparentemente orgulhoso e arrogante é, na verdade, um homem de bom coração; e ele descobre-se cada vez mais encantado pela vivacidade e inteligência da jovem, apesar de sua família sem tantos traquejos sociais.

Análise – A narrativa de Orgulho e Preconceito é marcada pela oposição entre a nobreza e a situação econômica pouco favorável, característica da maioria das protagonistas de Jane Austen, talvez em um paralelo com sua própria vida – filha de um pastor, Jane Austen viveu de forma simples, distante dos grandes bailes da sociedade britânica. Em uma análise precipitada, a obra da escritora parece enaltecer a ascensão social por meio do casamento, mas, na realidade, Austen ressalta o amor mesmo em relações improváveis. Para ela, era possível que um homem rico como Mr. Darcy conseguisse enxergar os atributos de uma jovem sem fortuna como Elisabeth Bennet.

A ideia de que o amor consegue superar qualquer barreira ainda é, nos dias de hoje, a tônica da maioria dos romances: veja-se, por exemplo, o caso do já citado 50 tons de cinza, que mesmo distante da relevância literária das obras de Austen, utiliza a mesma fórmula, pois narra o encontro amoroso – e sexual – de um alto executivo com uma jovem universitária. E se for para fazer comparações, é interessante notar como Elisabeth Bennet é mais transgressora do que Anastasia Steele, a heroína do livro de EL James – embora esta última acabe se tornando uma adepta de práticas sexuais sadomasoquistas -, principalmente por viver em uma sociedade patriarcal no século XVIII, época tão pouco favorável às mulheres.

Para o jornalista Lúcio Cardoso, que assina a tradução de Orgulho e Preconceito para a editora Civilização Brasileira de 2008, impressiona o fato de a obra de Austen manter a atualidade tantos anos depois de seu lançamento. “Os livros de Jane Austen atravessam os anos, dotados de uma assombrosa vitalidade. É preciso acrescentar que não fazem como geladas relíquias de uma época desaparecida, como o desejam tantos, mas, ao contrário, pelo sabor de sua indestrutível atualidade”, destaca no prefácio da edição.

Adaptações – Belos cenários, tramas bem construídas, personagens complexos e, principalmente, histórias de amor que superam adversidades são alguns dos componentes presentes nas obras de Jane Austen que os levam até hoje a serem adaptados para o cinema. A própria vida da britânica transformou-se em um filme, embora nem tudo que tenha sido retratado em Amor e Inocência (Becoming Jane) represente fielmente a vida da escritora, que tem uma biografia pouco conhecida, e muito do que se diz sobre ela não passa de mera especulação. Sabe-se, por exemplo, que Austen nunca se casou, mas teve uma grande paixão. É exatamente esse amor não concretizado que serve de pano de fundo para o longa-metragem sobre a autora. O interessante é imaginar como alguém que vivenciou pouco o amor conseguiu abordá-lo tão bem em seus livros.

Toda essa genialidade para criar romances tão bem construídos levou Austen a ser reconhecida como uma das escritoras mais importantes da Inglaterra, ficando atrás apenas de William Shakespeare. Esse reconhecimento supera a barreira do tempo e cativa leitores de todo o mundo até os dias de hoje. Aliás, a admiração que os leitores da escritora exercem por ela também rendeu um filme. O clube de leitura de Jane Austen (The Jane Austen Book Club conta a história de um grupo de pessoas que resolve se reunir para discutir seus próprios problemas a partir das obras de Austen.

Além do já citado Orgulho e Preconceito (2005), com direção de Joe Wright e Keira Knightley e Matthew McFadyen no elenco, as outras adaptações cinematográficas da obra de Jane Austen mais conhecidas foram Razão e Sensibilidade (1995), dirigido por Ang Lee e protagonizado por Emma Thompson, Kate Winslet e Hugh Grant; Emma (1996), com direção de Douglas McGrath e Gwyneth Paltrow no elenco; Palácio das Ilusões (Mansfield Park), de 1999, dirigido por Patricia Rozema e protagonizado por Frances O’Connor; A Abadia de Northanger (2007), dirigido por Jon Jones; Persuasão (1995), com direção de Roger Michell e Amanda Root como protagonista.

Basta assistir a alguns dos filmes adaptados da obra de Jane Austen para perceber as semelhanças entre eles. O mais visível talvez sejam as bucólicas paisagens campestres da Inglaterra do século XVIII – semelhantes às que a própria escritora morava – e a personalidade forte de suas heroínas, como Elizabeth Bennet, de Orgulho e Preconceito, e as irmãs Dashwood, de Razão e Sensibilidade. Embora vivam em sociedades patriarcais, as figuras femininas são sempre o centro das histórias construídas por Austen. Nos dois casos citados, por exemplo, o pai morre logo no início da trama (Razão e Sensibilidade) ou então tem uma personalidade bastante maleável, como o patriarca da família Bennet.

Os livros de Jane Austen também serviram de inspiração para outros filmes como O Diário de Bridget Jones (2001) que tem como herói da história Mark Darcy (Colin Firth), uma homenagem ao personagem criado por Austene As patricinhas de Beverly Hills (1995), com uma história similar à do livro Emma – ou tornaram-se uma espécie de referência na trama – como em A Casa do Lago (2006), onde o livro Persuasão é componente importante na história protagonizada por Sandra Bullock e Keanu Reeves.  

A trajetória de Jane Austen foi breve – ela morreu com 41 anos de idade-, porém profícua em termos literários. A autora, considerada a segunda escritora mais importante da literatura britânica, ficando atrás apenas de Williams Shakespeare, escreveu seis livros completos, são eles: Razão e SensibilidadeOrgulho e PreconceitoMansfield Park, Emma, Abadia de Northanger e Persuasão, além de alguns que nunca foram terminados. Orgulho e Preconceito foi o segundo romance lançado por Jane Austen, em 1813, – o primeiro foi Razão e Sensibilidade –, embora tenha sido finalizado em 1797, e era considerado por ela o seu “mais querido filho”.

Texto publicado na edição do dia 03 de fevereiro de 2013 do Jornal O Estado do Maranhão

Marisa Monte em apresentação iluminada

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Vestida de luz, a figura esguia no palco se agigantou. A mesma de 12 anos atrás, apesar de muito diferente. Marisa Monte estava tão à vontade no show da última terça-feira, no Ginásio Castelinho, que não tinha como duvidar que ali é realmente o seu lugar. O anseio de um público que não a via há mais de uma década foi satisfeito e as expectativas foram superadas. Quem ainda guardava na memória momentos do show de 2001, com o belo cenário de Ernesto Netto, um repertório irretocável e uma artista performática, embora quase lacônica, ganhou novas lembranças de um show com cenário e repertório ainda melhores e uma Marisa Monte muito mais desenvolta e cheia de disposição para conversar com o seu público. Nada como o tempo!

Parecia até que a plateia tinha recebido um roteiro, tão afinada estava com cada momento do show, desde o seu início, apenas com a voz de Marisa Monte cantando os breves e profundos versos de Blanco, até o seu desfecho, entoando em uníssono – mais uma vez, a exemplo do que aconteceu em 2001 – Bem que se quis, enquanto a cantora deixava sorrateira e suavemente o palco. A sinergia entre público e artista se evidenciava a cada canção, variando entre momentos de explosão de aplausos e cantoria nas músicas mais conhecidas – como Depois, Beija eu e Eu sei  – e contemplação e reverência nas menos conhecidas, como Ilusion e Amar alguém.

Visualmente, o show da turnê Verdade Uma Ilusão é suntuoso. Imagens que se sucedem – algumas com significado, outras cheias de abstrações –, efeitos luminosos e belas projeções de obras de artistas plásticos brasileiros contemporâneos – todos com seus nomes citados ao final da apresentação – tomaram todo o cenário garantindo um espetáculo visual grandioso e dando novo significado a algumas canções: da simplicidade de frases como “Amar é simples / Amar é complexo”, durante a execução de Amar alguém, à sucessão de palavras no “Glossário para viver em grandes cidades”, no momento em que Marisa Monte cantou Gentileza. 

Mudanças – “Cada show é um show. É igual a vida. Tudo pode acontecer”, falou Marisa Monte em recente entrevista por telefone, dias antes da apresentação em solo maranhense. E assim foi. Embora parecesse seguir um script conhecido há quase um ano, quando a turnê foi iniciada em Curitiba – inclusive no figurino, um vestido fluido que ganhou delicados movimentos durante os passos de um quase tango solitário na execução de Ainda bem e virou tela de projeção de efeitos luminosos durante Verdade Uma Ilusão -, Marisa Monte parece ter se adequado à plateia ludovicense, substituindo canções menos populares – como Hoje eu não saio, não; Sono Come Tu me Vuoi e Carnavália, incluídas no repertório oficial da turnê – por outras de apelo popular mais forte, como Aquela velha canção, Já sei namorar e Bem que se quis.  

É difícil acreditar que Marisa Monte não aceite para si o rótulo de “cult”, tamanha a sofisticação de seu  show. Porém, é bastante compreensível que ela se orgulhe de ser uma artista popular, por conseguir a conexão direta com um grande público. A verdade é que Marisa Monte no palco é acessível sem precisar fazer grandes concessões. Como ela mesma diz, canta o quer, na hora que quer; monta um repertório com a naturalidade de quem parece agradar a si mesma, em primeiro lugar. Talvez seja por isso que ela pôde ser vista tão inteira na apresentação da última terça-feira.

Ao final do show – que teve ainda outros belos momentos, a exemplo das conversas com o público, com seu violão no colo para homenagear Cássia Eller, após a execução de ECT e a reverência aos músicos que integram sua pequena orquestra -, ficou a certeza que pouco mais de uma hora e meia de show foi insuficiente para passar a limpo os últimos 12 anos do que foi produzido por Marisa Monte – ou melhor, seus 25 anos de estrada musical. Que a espera seja breve dessa vez!

Publicado na edição do dia 25 de janeiro de 2013 do Jornal  O Estado do Maranhão

* A foto foi gentilmente cedida por Taciano Brito

Marisa Monte reencontra São Luís

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Doze anos se passaram desde o último show que a cantora Marisa Monte apresentou em São Luís. Nesse intervalo, a carioca lançou quatro CDs – Tribalistas (2002), Universo ao meu redor e Infinito Particular (2006) e O que você quer saber de verdade (2011) -, teve dois filhos, ganhou vários prêmios e realizou dezenas de shows pelo Brasil. A espera de mais de uma década terminará hoje, às 21h30, no Ginásio Castelinho (Outeiro Cruz), quando Marisa Monte apresentará aos maranhenses o show da turnê Verdade Uma Ilusão, que já passou pelas principais cidades do país, entre as quais Porto Alegre, Curitiba, Rio de Janeiro, Bahia, São Paulo e Recife e seguirá para a Europa e para os Estados Unidos nos próximos meses.

 A produção do show em São Luís é do Grupo Marafolia e os portões serão aberto às 20h e Marisa subirá ao palco, pontualmente, às 21h30.  

Em entrevista por telefone a O Estado, Marisa Monte mostrou-se admirada com os 12 anos que se passaram desde sua última apresentação em São Luís, em 2001. “Sério? Tudo isso? O tempo passa rápido, né”, observou. Naquela ocasião, logo depois do show, a cantora carioca vivenciou um pouco da cultura maranhense em uma roda de tambor de crioula. “Eu tive a sorte de pegar o voo com a Alcione. Depois do show, ela me levou ao centro da cidade e eu pude conhecer um pouco de São Luís da melhor maneira possível que é ao lado de quem conhece bem a cidade. Vesti a saia, dancei, tomei catuaba”, contou.

No palco, os maranhenses devem sentir de forma bastante positiva os efeitos dos últimos anos na carreira de Marisa Monte, por meio de um repertório que privilegiará não apenas músicas do mais recente disco da cantora, O que você quer saber de verdade, mas dará espaço para sucessos de outros momentos marcantes dos seus 25 anos de estrada. Do disco novo, foram selecionadas Descalço no parque, Depois, Ainda bem, Amar alguém, Verdade Uma Ilusão, O que se quer, Hoje eu não saio não, além da canção que dá nome ao álbum.

O público que esteve presente ao show de 2001, na época da divulgação do CD Memórias, crônicas e declarações de amor (1999), irá rememorar aquela apresentação quando Marisa Monte cantar Amor I Love You, Não Vá Embora, Gentileza, Tema de Amor e A Sua (música lançada em um compacto em 2000). A cantora selecionou ainda Infinito Particular – do álbum de mesmo nome; Velha Infância e Carnavália, do disco Tribalistas, gravado com Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes; Arrepio e Blanco (Barulhinho Bom, 1995); Diariamente e De mais ninguém – do disco Cor-de-rosa e carvão (1993); Eu sei e Beija Eu (Mais, 1990). Marisa Monte ainda incluiu no repertório do show de sua turnê três canções que não foram registradas em nenhum de seus discos: Ilusion – gravada ao lado da cantora mexicana Julieta Venegas em 2008; ECT, composição de Marisa Monte ao lado de Carlinhos Brown e Nando Reis, que ficou mais conhecida na voz de Cássia Eller; além de Sono Come Tu me Vuoi, originalmente gravada pela cantora italiana Mina Mazzini, na década de 1960.

Sobre a escolha do repertório que tem sido apresentado na turnê, Marisa Monte disse que tudo acontece de uma forma bastante natural. “São músicas que marcam cada ciclo da minha carreira, algumas canções que eu nunca gravei em CD, mas o repertório surge de uma forma muito espontânea”, explicou.

A preocupação não é apenas com as músicas selecionadas para o show. Amante da arte, como ela mesma se descreve, Marisa Monte sempre prioriza o visual de suas apresentações. Dirigida por Leonardo Netto e Cláudio Torres, a turnê Verdade Uma Ilusão tem um cenário com projeções de artistas plásticos contemporâneos, além de vários efeitos visuais. “O show é um meio audiovisual. Acho importante esse diálogo com outros recursos. Na minha carreira, sempre tenho dialogado bastante com artistas plásticos, como nas capas de alguns dos meus discos e mesmo no show do Memórias, que teve o cenário do Ernesto Netto. Eu sou uma admiradora da arte brasileira”, destacou.

 

Escolhas –

Definida como uma cantora eclética, que transita com desenvoltura entre o popular e o erudito, Marisa Monte tem uma das carreiras mais sólidas da música brasileira, apesar de ser conhecida por tentar preservar ao máximo sua vida pessoal e por dar longos intervalos entre o lançamento de um trabalho e outro – a cantora demorou seis anos para lançar seu mais recente trabalho. Apesar dessas escolhas – ou talvez por elas -, que para muitos podem estar na contramão da velocidade que o mercado fonográfico exige nos dias de hoje, Marisa Monte mantém um público fiel que acompanha seus trabalhos nos últimos 25 anos e tem lotado todos os shows da turnê Verdade Uma Ilusão.

Talvez a leitura do público é que eu estou parada, sumida, mas eu estou sempre produzindo. E eu acho que também procurando atender ao grande desafio da vida contemporânea que é respeitar a velocidade própria. Vejo todo mundo muito acelerado, com muitas demandas externas, com um ritmo muito artificial. Acho que é importante a gente tentar ouvir a necessidade da nossa própria alma porque isso se lê no resultado final da criação”, avaliou.

Ao longo de sua carreira, a filha do portelense Carlos Monte cerca-se sempre de bons músicos – nesta turnê ela conta com a presença do baterista Pupillo, do guitarrista Lúcio Maia e do baixista Dengue, da banda Nação Zumbi – e firmou parcerias que resultaram em grandes sucessos. Mais do que isso, Marisa Monte sabe usar o próprio sucesso para apoiar projetos nos quais acredita, como o resgate do trabalho da Velha Guarda da Portela, primeiro produzindo o CD Tudo Azul (1998) e os discos solo de Seu Jair do Cavaquinho e Argemiro Patrocínio, e depois contribuindo com a pesquisa e a produção para o documentário O Mistério do Samba, dirigido por Lula Buarque de Holanda e Carolina Jabor.  

 

CD

 Lançado em 2011, seis anos depois dos seus últimos trabalhos – Infinito Particular e Universo ao meu redor -, O que você quer saber de verdade reflete, segundo Marisa Monte, a necessidade de buscar o próprio bem-estar. A seleção das 14 faixas – a maioria compostas pela carioca ao lado de antigos e novos parceiros, como Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes e Rodrigo Amarante – aconteceu de forma espontânea, mas culminou com um disco que coeso, na avaliação da cantora. Longe de ser aclamado pela crítica, o CD conseguiu agradar ao público principalmente por causa das músicas incluídas em trilhas sonoras de novelas da Rede Globo: Depois, de Avenida Brasil e Ainda Bem, de Amor Eterno Amor.  

O que você quer saber de verdade fala um pouco dessa necessidade do silêncio para se entrar em contato com a intuição e seguir o que realmente é relevante. E isso é um critério individual, é uma meta existencial de cada um, que não segue um padrão, que cada um tem de buscar em si mesmo. Então, eu acho que o disco fala um pouco disso, do contato com a intuição, de procurar estar bem, de procurar o que te faz bem”, avaliou a cantora.

Sobre as expectativas para o show de hoje à noite em São Luís, Marisa Monte, que se define como uma artista de palco, garante que, apesar de já estar há quase um ano rodando o país com a turnê Verdade Uma Ilusão, um show nunca é igual ao outro. “Cada show é um show. Sempre fazemos pequenas mudanças de uma apresentação para outra, pequenos ajustes. É igual a vida. Tudo pode acontecer”, finaliza.

Reportagem publicada na edição de 22 de janeiro de 2013 do jornal O Estado do Maranhão

Os tais 50 tons

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Preconceitos literários. Sim, eu os tenho – assim como os musicais. Não me furto o direito de julgar um livro pela capa, por seu autor ou mesmo pela campanha massiva que fazem dele. Mas, diferentemente da maioria das pessoas – pelo menos as que conheço -, não tenho problemas em admitir esse meu defeito, nem em mudar de opinião e me render a uma obra. Sim, eu me rendi aos tais 50 tons de cinza, que tanto escandalizaram meio mundo e figuram no topo das listas dos mais lidos. E, apesar de ter concluído a leitura das mais de 450 páginas em um fim de semana, mantenho a impressão que tinha antes mesmo de ler o livro.

50 tons de cinza, como obra literária é insignificante, mas tem outros méritos. Talvez o principal deles seja transgredir. Se fosse escrito durante a Idade Média, o livro de E L James fatalmente seria incluído no Index, a lista dos livros proibidos – e condenados – pela Igreja Católica. Se pertencesse ao universo ficcional retratado por François Truffaut no filme Farenheit 451 – em que os livros eram queimados e quem se atrevesse a possuí-los era sumariamente preso – todos os exemplares já teriam se transformado em cinzas. Mas, nos dias de hoje, quando tudo já parece liberado e nada mais choca, um romance para “mulherzinha” é transgressor não por falar em sexo, mas pela maneira como aborda o tema.

Os clichês permeiam a trama e, por vezes, nos fazem revirar os olhos de vergonha, tal qual a heroína da trama faz vez por outra. Moça ingênua e insegura – apesar de bonita e inteligente – apaixona-se por milionário bonitão e autoritário, mas cheio de conflitos. Pronto! Eis a descrição de Anastasia Steele e de Christian Grey. Chega a ser patética a maneira como os dois se encontram. Ao atender a um pedido de sua amiga e aspirante a jornalista Katy, a estudante de Literatura Anastasia se dispõe a entrevistar o bem-sucedido empresário para um artigo do jornal da faculdade. Intimidada pela suntuosidade da empresa do milionário e por um mundo bem diferente do que conhece, Anastasia se atrapalha ao entrar na sala de Grey e cai diante dos pés do milionário. Durante a entrevista, não faltam outros momentos de saia justa para a jovem, mas que, paradoxalmente, revelam seu comportamento espirituoso, despertando o encanto do poderoso Christian.

A inesperada atração entre eles é imediata, embora só seja assumida por ambos algum momento depois do primeiro encontro. Tudo seria perfeito, seria esta uma linda – apesar de improvável – história de amor se não fosse por um detalhe: Christian é um dominador sexual! Na verdade, o desejo do executivo é transformar Anastasia em uma de suas submissas e dar vazão a práticas sexuais cuja dor é componente preponderante. Para complicar mais está relação – ou pelo menos dar esta impressão -, a jovem Ana é virgem, enquanto o poderoso Christian é apenas um homem atormentado pelos fantasmas do seu passado de abandono e violência na infância.

Apesar de toda a carga sexual de 50 tons de cinza, o livro é apenas um romance água com açúcar disfarçado de obra sadomasoquista pois esta conotação é totalmente esvaziada pelas características dos personagens criados por E L James. E tudo só piora nos dois volumes que dão sequência à história – 50 tons mais escuros e 50 tons de liberdade. A impressão que se tem é que a autora poderia ter concluído o romance em um único volume que ganharia em ritmo, mas certamente a faria perder milhões de dólares em venda.

A verdade é que ler os três volumes de 50 tons só não é perda de tempo maior porque ler sempre é válido, mesmo que seja apenas para criticar depois. Para quem ainda não se rendeu a este “fenômeno” literário, existem obras muito mais interessantes no mercado – inclusive com a temática sexual como pano de fundo. Mas, se ainda assim o leitor quiser fazê-lo, pare no primeiro livro e apenas imagine o resto da história. Será bem mais proveitoso!

Marisa Monte é sempre Marisa Monte!

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Foi em janeiro de 2001 que Marisa Monte trouxe ao público maranhense o seu show Memórias Crônicas e Declarações de Amor, quase impecável não fosse a péssima acústica do Multicenter Sebrae, local escolhido para a apresentação. Novamente, janeiro foi o mês escolhido para que a cantora apresentasse aos maranhenses o show de sua nova turnê Verdade uma ilusão. Será no dia 22, já de 2013, portanto 12 anos depois daquela memorável apresentação.

E se os trabalhos mais recentes da cantora já não são mais tão consistentes quanto os mais antigos, como Barulhinho Bom, Cor de Rosa e Carvão e o próprio Memórias, Crônicas e Declarações de Amor, estar presente na plateia de um show de Marisa Monte nunca é uma experiência da qual alguém irá se arrepender. Até porque CDs como Universo Ao Meu Redor, Infinito Particular e O que você quer saber de verdade têm sim seus bons momentos, apesar de outras faixas dispensáveis. Além disso, Marisa Monte é sempre Marisa Monte!

Resta torcer para que a cantora faça um set list que agrade ao público que já a espera há algum tempo e aguardar que o local da apresentação seja definido.  

Planos para um novo ano

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Um ano novo é como uma segunda-feira: uma nova oportunidade! As coisas podem até não mudar, mas a gente precisa acreditar que sim. É isso que nos move, o que nos instiga, o que nos faz ter esperança em uma nova realidade. Talvez por isso as pessoas se empenhem tanto em fazer listas para o ano vindouro, mesmo que esses itens nunca saiam de fato do papel. Ainda assim, é bom acreditar que conseguiremos perder os 5 quilos que estão nos incomodando ou que finalmente conseguiremos ler uma média de um livro por mês.

 O problema é quando tudo fica apenas no plano das ideias. Sonhar faz parte da vida, querer que as coisas mudem é legítimo, mas é preciso efetivamente fazer alguma coisa por si mesmo e não deixar tudo a cargo da vida ou do destino. Mesmo que nem todos aqueles itens das nossas listinhas de fim de ano sejam concretizados, trabalhar para torná-los realidade já ajuda bastante. De que adianta, por exemplo, desejar perder alguns quilos se a pessoa não muda a própria alimentação? É como achar que vai ganhar na loteria sem nunca ter jogado. Impossível!

Talvez o maior dos planos para um ano que está começando deva ser apenas se esforçar para ser uma pessoa melhor e tentar fazer um mundo diferente. Trabalhar todos os dias um pouquinho para tratar melhor as pessoas que estão do seu lado, por exemplo. Em relação aos objetivos mais práticos, é preciso trabalhar com metas, prazos. Se a pessoa deseja perder peso, deve procurar um nutricionista e mudar os hábitos alimentares. Se o desejo é mudar os rumos da vida profissional, é preciso colocar isso no papel, investir em cursos, preparar o currículo, fazer contatos, enfim, movimentar-se. Simples assim.

Idealizar uma nova vida sempre que um ano chega ao fim não leva ninguém a lugar nenhum, mas só deixar o barco correr, sem prumo, também é pouco eficiente. Não é preciso efetivamente escrever uma lista de objetivos a serem alcançados no ano que está chegando, mas é necessário sim ter pelo menos em mente onde se pretende chegar. Se você não conseguir chegara ao lugar que pretendia, pelo menos terá se movimentado um pouco.

Feliz 2013!